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Vencer desafios à sua caminhada de santificação

Desde sempre nossa Igreja conviveu com a diferença e a ameaça de rupturas. Fosse pelas perseguições dos judeus ou dos romanos no início, fosse pelas heresias nos primeiros séculos, a Igreja teve que aprender a vencer os desafios externos e internos à sua caminhada de santificação.

Amplificada por Constantino, aparentemente por conveniência política, acabou trazendo para dentro de si um panteão de crenças romanas, tanto henoteístas (crença um deus principal e em vários deuses menores, localizados por temas ou causas, como o deus da guerra, o deus do amor, etc, agora transformados em santos cristãos causídicos), como politeístas e mundanas e, desde então, vive o dilema do poder, grandeza e temporalidade versus a preservação de sua essência e dos propósitos originais.

Ainda sim, mesmo com o mal por vezes se manifestando dentro da igreja (organismo humano), assim como em Jó, aparentemente, este mal somente serviu para legitimar e moldar a evolução da Igreja (organismo espiritual). Parece, portanto, que é Deus quem “permite” que o mal se instale dentro da igreja, para que esta se redima, busque perdão, perdoe, se aquebrante, convirja e marche para Cristo e o Evangelho, sem olhar para trás, como recomendado por Paulo (cf Filipenses: 3, 13-14).

A história da Igreja é a história da ação do Espírito Santo na humanidade, desde que Cristo subiu ao Pai. Desde Pentecostes, o Espírito Santo conduz a obra de Cristo, cuidando e fortalecendo sua Igreja, a partir do Projeto/Valores de Jesus.

Jesus, como pastor, sempre trouxe para fora os escravizados, libertando o homem do grilhão do mal, do poder pelo poder, do outro que o subjugava e diminuía. Jesus restaurou nossa filiação e liberdade sequestradas pelo Pecado com seu Sacrifício e nos deixou o Evangelho como regra para manter essa salvação, que não conquistamos por nós mesmos.

Então, nos primeiros séculos do cristianismo primitivo, das perseguições e heresias doutrinárias essenciais, o Espírito Santo agiu dentro da Igreja, fortalecendo sua doutrina e posição na sociedade (vide união em torno dos 7 primeiros concílios, respeitados e seguidos até hoje pelas principais igrejas/denomiações cristãs).

Infelizmente, quando finalmente a Igreja se tornou praticamente isonômica e dominante como doutrina, também se tornou, evolutivamente, ela mesma uma potestade de si própria, se misturando ao poder imperial, privilegiando, muitas vezes, dominar, legislar e julgar (vide, por exemplo, o Dictatus Papae de Gregório VII, de 1074/5) a servir e evangelizar.

Assim, toda vez que a Igreja, em sua mais pura condição humana, assumiu seu poder pelo poder e não pelo serviço (em geral, do ano 1000 até praticamente o Vaticano II) sendo ela a acachapante e não a libertadora, o Espírito Santo, que sopra como quer e onde quer, agiu também “fora” dela (com loucos e “hereges” confundindo os “sábios”), a fim de reformá-la, uma vez que Cristo não está onde não há santidade.

Ora, sabemos que a prova da presença do Espírito Santo são os frutos e não os dons. Onde há  concórdia, união, serviço, há Espírito Santo. Onde há discórdia, há ausência do Espírito. Mas, como a Igreja Católica é a Igreja de Cristo e, por decorrência, objeto de trabalho do Espírito Santo, então, o Espírito Santo zela para que ela sobreviva, evolua, cumpra seu papel até a Parusia, seja agindo por dentro, seja agindo “por fora”.

Grande prova deste modus operandi do Espírito é que, aparentemente, Deus/Jesus sempre escolheu os improváveis, pecadores, fracos e desgarrados/apartados para realizar suas obras mais transformadoras: Abraão, Moisés, Salomão, Pedro, Paulo, Constantino, Lutero, Francisco, etc… É por isso, por essa graça e por essa ausência de busca por perfeição de Jesus no homem, que podemos dizer que somos todos escolhidos e que o Evangelho é e está para todos nós, ainda que pecadores.

Conclusão óbvia: o Evangelho não é para os perfeitos, mas para os que dizem sim. Não são os são que precisam de médicos, mas os doentes. Não há perfeitos perante Deus e somos todos doentes. Jesus não escolheu errado ao escolher Pedro, Paulo e os demais com suas falhas e pecados; senão, teria escolhido errado ao nos escolher a todos, que somos, cada um de nós, o principal pecador.

O Corpo Místico de Cristo e a Encíclica de Pio XII

O Papa Pio XII, na sua encíclica Mystici Corporis Christi (1943), reafirmou que a Igreja de Cristo, que é (ou está ou subsiste) na Igreja Católica, é um Corpo Místico encabeçado por Cristo.

O Papa explicita que a Igreja é chamada de Corpo, porque é uma entidade viva, formada por fiéis vivos, que são os seus membros; a Igreja é chamada de Corpo de Cristo, porque Cristo é a sua Cabeça e o seu fundador; a Igreja é ainda chamada de Corpo Místico, porque ela não é uma instituição puramente humana, material e terrena, mas também não é uma entidade puramente espiritual e divina. A Igreja é, pois, uma comunhão multiplanos (vivos e mortos, terrena e espiritual), supranacional e unificadora de todo o gênero humano com Deus e em Deus.

Esta encíclica de Pio XII teve grandes repercussões no seio da Igreja Católica, suscitando ainda hoje vários debates e discussões sobre o seu conteúdo. Por exemplo, devido aos seus ensinamentos teológicos, os fiéis católicos, sejam eles clérigos, leigos ou consagrados, passaram pouco a pouco a gozar de uma igual dignidade entre si, apenas diferenciando-se nas suas funções. Esta encíclica, que se baseava na teologia de Paulo, influenciou também fortemente o próprio Concílio Vaticano II (1962-1965), que usou e defendeu o este conceito de Igreja (a Igreja como Corpo Místico de Cristo) na sua constituição dogmática Lumen Gentium, que trata justamente da natureza e da constituição da Igreja.

A Igreja e o Concílio Vaticano II

A partir do Concílio Vaticano II, pela primeira vez em um documento do magistério se ressaltou o sacerdócio comum de fiéis (constituição dogmática sobre a Igreja – Lumen Gentium, art. 10), sobretudo, com a confirmação da essência da Igreja definida como “Povo de Deus”.

Por respeito, a encíclica de Pio XII “Corpo de Cristo” obtém um parágrafo específico no texto da Constituição sobre a Igreja (art. 7), mas é colocada claramente como uma das imagens propostas para descrever a Igreja.

Por outro lado, o conceito de “Povo de Deus” é posicionado em primeiro plano como cerne fundamental da estrutura eclesial, tratando a todos os cristãos, independentemente de fazerem ou não parte de ministérios, como cristãos e, portanto, “Povo de Deus” com uma tarefa sacerdotal e evangelizadora a perseguir.

Como consequência, tivemos o enraizamento na consciência dos membros da igreja de que todos somos Igreja e não que simplesmente participamos de uma igreja. Estes conceitos encontraram perfeita sintonia com que propôs, por exemplo, Lutero em 1539, nos escritos “O Concílios e a Igreja”, onde afirmara: “Estes (os ministros) preferem que os considerem a igreja, enquanto papa, cardeais e bispos…”.  Lutero também já afirmava: “a Igreja é o povo cristão santo, que crê em Cristo”. Ainda, em outra passagem, fala da Igreja como as “ovelhinhas que escutam a voz do seu pastor”, que é Jesus.

Quais são, hoje, as Igrejas em perfeita comunhão?

A filiação adotiva a Deus não se define somente pelo Batismo, que é a introdução formal do indivíduo no Corpo Místico de Cristo (a Igreja), uma vez o sacrifício de Cristo foi e é universal (católico, portanto).

Tampouco, a relação direta com esse Deus-Pai depende exclusivamente de um organismo terreno físico denominado igreja – e, assim, a salvação fora dessas igrejas é possível. O que a Igreja de Cristo traz aos batizados é o conceito de comunhão e participação ativa no seu Corpo Místico e, com isso, a relação com Deus comunitarizada, pelo outro, com o outro. Isso evidencia que a Igreja em comunhão, com Cristo como parte dela, por opção (apesar de também estar “fora” dela, pela natureza totalitária da Semente do Verbo) é um instrumento que dispõe de mais meios eficazes capazes de garantir a salvação já conquistada por Jesus.

Dentre as Igrejas que formam a Igreja de Cristo estão aquelas que, conforme o credo nicenoconstantinopolitano, professam um só Batismo. Portanto, devemos compreender que diversas igrejas cristãs fazem parte do Corpo Místico de Cristo, sejam em comunhão integral ou parcial, de forma perfeita ou imperfeita, com a Igreja primaz, a Católica Apostólica Romana. São elas:

  • Em comunhão perfeita e integral: as 23 Igrejas Católicas (1 ocidental e 22 orientais) irmãs com seus ritos autônomos, mas em perfeita comunhão plena com o Papa de Roma. Dentre elas podemos citar a Etíope, a Copta, a Maronita, a Melquita, a Malabar etc
  • Em comunhão imperfeita estão outras tantas igrejas separadas, associadas ou advindas das católicas, como a Ortodoxa, a Luterana, a Anglicana, a Presbiteriana e a Velha Igreja Católica.
  • Em comunhão incompleta (principalmente porque não sacramentam a Eucaristia) estão as igrejas cristãs dissidentes, já não denominadas católicas, mas que confessam Jesus Cristo como Deus, Salvador, dentre as quais as protestantes menos tradicionais e evangélicas em geral, como a Metodista, a Quadrangular, a Assembleia de Deus e a Batista, dentre outras.

Só  no Concílio Vaticano II, todos os ritos das diferentes Igrejas Católicas foram considerados com a mesma dignidade. Antes, muitos consideravam o rito Romano superior aos demais e os ritos orientais eram meramente tolerados.

  1. Família latina:
  2. rito romano ordinário
  3. rito romano extraordinário
  4. rito ambrosiano
  5. rito moçárabe
  6. rito cartuxo
  7. rito bracarense
  1. Família ritual bizantina:apenas o rito bizantino, usado pelas seguintes igrejas:
  2. Igreja Católica Bizantina Albanesa
  3. Igreja Católica Bizantina Bielorrussa
  4. Igreja Greco-Católica Búlgara
  5. Igreja Greco-Católica Croata
  6. Igreja Católica Bizantina Grega
  7. Igreja Greco-Católica Melquita
  8. Igreja Greco-Católica Húngara
  9. Igreja Católica Ítalo-Albanesa
  10. Igreja Católica Bizantina Macedônia
  11. Igreja Greco-Católica Romena unida com Roma
  12. Igreja Católica Russa
  13. Igreja Católica Rutena
  14. Igreja Greco-Católica Eslovaca
  15. Igreja Greco-Católica Ucraniana
  1. Família ritual armênia:apenas o rito armênio, usado só pela Igreja Armênia.
  2. Família ritual alexandrina:apenas o rito copta, usado pelas Igrejas Copta e Etíope.
  3. Família ritual siríaca ou antioquena:
  4. rito siríaco, usado pelas Igrejas Siríaca e Malankar
  5. rito caldaico (ou assiríaco, ou ainda siríaco oriental), usado pelas Igrejas Caldaica e Malabar
  6. rito maronita, usado só pela Igreja Maronita

Com exceção da Igreja Maronita, todas igrejas orientais católicas possuem uma igreja equivalente separada de Roma, podendo ser ortodoxa ou não (dependendo de quantos concílios ecumênicos aceitou ao longo da história). Se aceitou os 7 primeiros concílios ecumênicos, é definida como ortodoxa; se aceitou apenas os 3 primeiros concílios é pré-calcedoniana e se aceitou apenas os 2 primeiros, é pré-efesiana. Por exemplo, a Igreja Melquita tem como contraparte a Igreja Ortodoxa Antioquena e a Igreja Católica Armênia tem como contraparte a Igreja Armênia Apostólica, que é pré-calcedoniana.

Embora a particularidade das igrejas orientais seja mais marcadamente possuir um rito diferente do rito romano, ela envolve, como foi dito, outros aspectos. Não obstante possuam os mesmos 7 sacramentos, a forma de administrá-los por vezes difere (além das orações diferentes). Batismo, Crisma e Eucaristia são sempre ministrados em conjunto ao bebê ou à criança, que é apresentada à Igreja para se tornar cristã.

A Eucaristia é consagrada com pão fermentado e não ázimo (à exceção das Igrejas Maronita e Armênia). A Crisma pode ser conferida também pelo padre e não somente pelo bispo. Já na parte da espiritualidade, ao lado do rosário, de origem latina, que é muito praticado, existem outros cordões de oração, como o assim popularizado no Brasil “terço bizantino”.

Quanto à disciplina, o exemplo que chama mais à atenção é o celibato opcional para os candidatos ao sacerdócio: se o homem, antes de ser ordenado, quiser se casar pode fazê-lo e, em seguida, comprovada sua fidelidade aos deveres do matrimônio, ser ordenado padre. Por fim, nas questões de governança, as Igrejas Orientais são regidas por seus Santos Sínodos, sendo o Patriarca “apenas” executor e uma autoridade moral e espiritual.

Seja como for, ecumenicamente, compreender que as diferenças entre as igrejas e ritos cristãos têm suas raízes na cultura dos diferentes povos e na forma como receberam o Evangelho e no modelo mental de mundo que construíram a partir desses conteúdos é um passo fundamental de respeito e humildade. Perceber que todos, de uma forma ou de outra, confessam Jesus como único Senhor e Salvador tem que ser o fio condutor central para a reintegração ecumênica da perfeita unidade na diversidade.

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