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Será que somos verdadeiramente cristãos? E católicos?

Atualmente,em torno de 70% da população brasileira se diz adepta à fé católica. Desses, somente de 6% a 8%afirmam participar da Eucaristia semanalmente. Ou seja, em torno de 5% de toda população brasileira é REALMENTE católica; porque não pode haver catolicismo ou mesmo cristianismo sem a prática contínua da Eucaristia, sem a comunhão contínua do Corpo Místico (fieis) com a Cabeça (Cristo) da Igreja.

A Eucaristia não é somente uma doutrina, sacramento ou rito. É, antes de tudo, estar, permanecer, ter Cristo, pelo Espírito Santo. E, quem não está com Cristo, não pode se dizer cristão.

Metanoia e a conversão diária do cristão

Quem fala em conversão radical – Metanoia – é o próprio Jesus.

Jesus propõe a Nicodemos nascer de novo, nascer do alto/do elevado, que é o próprio Jesus na cruz. Nascer da água, que é nascer do espírito, que é Jesus (Jesus é água viva, conforme a passagem da lança que perfura Jesus no lado, fazendo jorrar sangue e água eque só é narrada por João). Isso é passar da prática da Lei que mata para a prática da vida, que dá a vida (conversão, metanoia). Jesus pendurado na cruz é o parâmetro/paradigma para o nosso novo nascimento.

Metanoia é a conversão radical de dentro para fora. É, portanto, muito mais que mudar de ideia, muito mais profundo que a metastrofe; metanoia é mudar o sujeito (“convertei-vos e acreditai no Evangelho”), se fazer nascer um novo homem, conforme Paulo em Gálatas 2,20: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.”

Sem essa conversão radical não podemos ser seus discípulos. Com ela, assumimos a personalidade de Cristo, em detrimento da nossa; assim como os valores do Reino e o Projeto do Pai como nossas prioridades. Com ela, potencializamos nossos dons, pelo Espírito Santo, e nos tornamos verdadeiros seguidores de Jesus.

Por isso, podemos dizer que Metanoia é um processo muito mais radical de esvaziamento (Kênosis) individual, de mudança de sujeito, de coração, um verdadeiro processo de morte do “eu” do indivíduo, que deixa de ser autônomo e de subsistir em si mesmo (cf. o Papa Bento XVI), para viver por/em outro “eu”, reconcebido num eu maior, que vive no indivíduo, possibilitando então que o indivíduo viva em Cristo, como parteda Igreja, do Corpo Místico (ChristusTotus). É, portanto, um processo também sacramental, pois é a Igreja que nos fazcristãos, inicialmente pelo Batismo, quando nos vestimos com a túnica de Cristo.

O mesmo Bento XVI insiste na necessidade primeira de nos configurarmosa Cristo. Porém, só é possível nos configuramos ao Cristo total por meio da Igreja. Sim, ele é bem claro nesse ponto e continua o raciocínio dizendo que se trata de “… um processo sacramental, isto é, de Igreja. O passivo de tornar-se cristão exige o ativo da ação da Igreja, onde a unidade do sujeito do fiel se apresenta corporal e historicamente e só a partir daqui é que pode ser adequadamente entendida a palavra paulina da Igreja como corpo de Cristo, ela se identifica com o revestir-se de Cristo, com o ser revestido de Cristo em que essa nova veste que ao mesmo tempo protege e liberta o cristão é o corpo de Cristo ressuscitado. Isso só é possível pelo Batismo.”

Metanoia é um imperativo de vida, mas virtualmente impossível para a quase totalidade dos cristãos

Por experiência, sabemos que essa conversão radical é, em geral, contrária à natureza humana, à natureza da carne, porque somos feitos de carne, portanto, pecadores sempre prontos a cair.

Somos bombardeados a todo momento com mensagens e tentações que nos afastam do homem renascido, do homem novo, que deveríamos nos tornar. Se, diariamente, pelas condicionantes da vida e do mundo, nos afastamos do modelo que é Jesus, também diariamente temos que perseguir esse modelo. Ou seja, em todos os dias temos que procurar nossa conversão, de forma atenta e vigilante, conforme Jesus nos orientou.

É a fé o elemento que nos traz para a Verdade, para a realidade, por mais dura que estapossa ser. Hoje, cada cristãoparece sonhar com seu próprio delírio, saindo da realidade, da Verdade, quando deveria vigiarincansavelmente para manter a fé, para permanecer na Verdade, pois sabe que sem fé, somentepode chegar à heresia (pecado na teologia) e à doxa (senso comum na filosofia). Precisamos saber que somos constantemente atraídos para fora do real, para o mundano, para a tara, para o vício carnal,para fora da Verdade que nos salva. Por isso, para estarmos nessa Verdade, precisamos da virtus (virtude), conquistada somente com busca pela conversão/metanoia pessoal.

A Eucaristia é a graça que nos permite estar com Cristo, porque é Cristo real em nós, pela comunhão. A Eucaristia é o Sacramento que nos fortalece para que possamos enfrentar o Mundo, com Cristo “misturado celularmente” conosco. Como Sacramento,a comunhão responde à falta de sentido para as nossas vidas, estampadas por corações vazios e sem sentido. Por isso, não há nada mais enriquecedor do que encher nosso coração vazio com o amor de Cristo, nosso Senhor e é na Eucaristia que podemos encontrar a plenitude de tudo o que buscamos.

Pontos fundamentais sobre nosso processo de conversão

  • Deus não nos faz santos, não nos coage, mas nos convida à santidade, dando-nos todos os meios e Sacramentos para que sejamos santos, por liberdade de opção. Somos chamados à pureza de coração, que é o caminho para chegarmos a Deus e entrarmos em sua intimidade. Nesse caminho, a fé é fundamental e deve seravivada constantemente.
  • Não somos nós que aceitamos Jesus, como pregam diversas “igrejas” e doutrinas “modernas”. Na verdade, ser cristão é entender que é Jesus quem nos aceita como somos, com nosso arrependimento e agradecimento quebrantado por termos sidos perdoados e salvos por Ele e, por conseguinte, incluídos em seu Reino. Por isso, quando Jesus nos aceita, não devemos nos julgar perfeitos. Por isso, nossa santificação é um caminho de consciência de nossa imperfeição; quanto mais pensamos assim, menos jactantessomos e mais santos nos tornamos, porque não há mais justiça própria, mas somente a confiança total em Jesus e a disposição de viver somente segundo seu Evangelho. Quando isso acontece, não nos tornamos perfeitos, mas passamos a viver em santidade e perfeição, segundo o Evangelho.
  • Se queremos ser perfeitos perante Deus (premissa), então ao reconhecermosnossa incapacidade de conseguir isso por mérito, pela corrupção da carne que trazemos em nosso DNA espiritual, aceitamos que necessariamente precisamos de Jesus e de sua obra salvífica para tal reparação.
  • Quando nos convertemos, não há como 2 transformações essenciais não se fortalecerem em nós: a caridade/generosidade e a gratidão (cf. Paulo, que afirma que para recebermos os bens imperecíveis via aquele que evangeliza em nome do Senhor, devemos dar bens perecíveis para sustentar sua obra).
  • Quanto mais nos “metanoiamos” no Evangelho, renovando nossa mente e tendo nosso coração cheio de gratidão – ou seja, mudamosnosso pensar e agir conforme o Evangelho; quanto mais desistimos dos nossos próprios pensamentos que se apresentam incoerentes perante a Palavra de Deus, mais nos aproximamos de Deus, por vivermos, pensarmos, sentirmos e agirmos segundo o Evangelho, dando razão a Deus.

A relação da Igreja convertida com seu Deus

Como Igreja e como indivíduos, crermos em Deus é estarmos abertos ao absurdo, ao imponderável, ao sobrenatural, ao paranormal, àquilo que não entendemos e compreendemos, mas aceitamos de coração.

Como crentes, não podemos ignorar as questões ligadas a outras dimensões, a questões e mistérios não revelados (Jesus mesmo disse que “sobre certas coisas não foi dada a vós conhecerem” etc.), a questões que parecem ficcionais.

Como Igreja, sermos cristãos significa:

  • termos uma orientação mental sem as travas do racionalismo mecânico que neutraliza o espiritual e o sobrenatural,
  • crermos que o impossível hoje pode não ser impossível, de fato, mas impraticável, neste momento e, por isso, tem que continuar sendo perseguido,
  • recebermos o Espírito Santo representando Deus e Jesus em cada um de nós, no Batismo, pela razão, adesão e total entrega,
  • aderirmos ao projeto de Deus e ao Reino de Deus, que está em nossos corações e que se materializa em nossa ressurreição em vida e após a morte,
  • renovarmos a mente todo dia, não nos conformando com o mundo hoje e nem com a mundanização da igreja,
  • pensarmos, avaliarmose decidirmostudo de acordo com o Evangelho, tendo o Evangelho como ponto de partida para tudo e como ponto de chegada para a caminhada,
  • mantermos a mente em estado de arrependimento constante, seja pela dor, seja pela consciência evolutiva,
  • termos Deus como contraponto em tudo que fazemos, pensamos e sentimos.

As estradas são comuns; os caminhos é que são singulares. Às vezes Deus permite que tropecemos, para que possamos entrar em contato com nossa pequeneza e singularidade, a fim de nos aproximarmos dele, entrarmos em comunhão profunda e permanecermos nele. Porque o justo vive pela fé, e não por suas convicções.

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