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Quem foi o Jesus Histórico

Definir Jesus. Impossível ou arrasadoramente simples? Simples! Para nós, cristãos, Jesus é Deus.

Se isso não bastar, para quê tentar defini-lo?

Afinal, amar e seguir a Jesus presume CONHECER, CONCORDAR e ADERIR a uma PESSOA REAL chamada Jesus, para nós, cristãos, 100% Homem e 100% Deus. Entretanto, se não o conhecemos – de VERDADE e em VERDADE, então como segui-lo; para quê segui-lo?

Antes, porém, uma breve observação: é quase certo que muitas das informações contidas nestes 3 Fascículos do Kênosis não sejam exatamente de domínio da imensa maioria dos cristãos, especialmente católicos, uma vez que fomos desde sempre expostos e “viciados” em uma versão ou em “n” versões de Jesus que simplesmente não representam a verdade histórica ou mesmo teológica sobre sua pessoa.

O mais interessante é que todas as informações e conceitos presentes nesses estudos são de domínio e conhecimento há muito tempo de historiadores, pensadores, sociólogos, teólogos e religiosos (bem como de suas igrejas), mas, mesmo verdades, simplesmente não conseguem sobrepujar a imagem falseada que se fez, ao longo do tempo e com muita repetição, deste homem-Deus, Deus-homem chamado Jesus.

Assim sendo, ao contrário do que se deveria fazer em ensaios deste tipo, vamos começar dizendo QUEM JESUS DEFINITIVAMENTE NÃO É:

  • Fundador de uma religião chamada cristianismo
  • Divindade sincrética presente em inúmeras religiões
  • Reencarnação ou emulação de qualquer deidade da agricultura, dos ciclos da natureza, da fertilidade, “divindades” criadoras adoradas nas civilizações antigas
  • Mais uma manifestação cultural pagã da divindade solar e das religiões de mistério, como Horus, Osíris, Mitra, Adônis (ou Tamuz), Dionísio, Baco ou Attis, alguns destes também “homens-deuses” gerados da relação entre um “deus” e uma mortal humana (eventualmente virgens)
  • Mais um “filho de Deus”, como Apolônio ou Josué (antigo “deus” vegetativo, de morte e ressurreição, ritualmente sacrificado e ingerido)
  • Grande líder humano como Ghandi, John Lennon ou Martin Luther King
  • Revolucionário judeu contra o Império Romano ou mais um suposto Messias judaico, como Simão, o Mágico ou Judas Macabeu
  • Milagreiro a serviço dos homens

Quem FOI Jesus, então?

Antes de entrar em searas teológicas ou religiosas, faz-se mister primeiramente investigarmos e confirmarmos que, HISTORICAMENTE, de fato, existiu um HOMEM chamado Jesus, na Palestina romana, nos primeiros 30 anos de nosso tempo.

Porque temos que “perder tempo” confirmando que Jesus, de fato, existiu como pessoa humana?

Nos últimos 100 anos, não foram poucos os estudiosos, acadêmicos, teólogos e cientistas, alguns bastante respeitados, que propuseram ao mundo a idéia de que Jesus Cristo nunca existira; ao contrário, que foi uma invenção dos apóstolos ou mesmo uma invenção literária, um mito.

Essa corrente, bastante ativa e de forte influência no mundo acadêmico, científico, político e, portanto, educacional, recebeu o nome Miticista (ref. mito), e tem entre seus expoentes nomes como:

Constantin Volney (francês, primeiro a negar, no calor do Iluminismo, a existência de Cristo, no Sec. XVIII, em seu ensaio “Ruínas do Império”), Joseph Campbell (o primeiro a propor que todas as religiões eram uma só), Charles-François Dupuis (“Origem de Todos os Cultos”, de 1795), Bruno Bauer (alemão e primeiro estudioso da Bíblia a afirmar a não existência de Jesus em “Criticism of The Gospel History of John”, de 1840), J.M. Robertson (racionalista britânico, autor de “Christianity and Mythology”, do início do Sec XX), Arthur Drews (“The Christ Myth”, de 1909, obra que convenceu Lenin de que Jesus poderia até ter existido, mas que não tinha nada a ver com o Cristo cristão, conceito este que Lenin popularizou com o comunismo na União Soviética), Earl Doherty (mais moderno, autor de “The Jesus Puzzle: Did Christianity Begin with a Mythical Christ?” e de “Jesus: Neither God nor Man”), Robert Price (acadêmico altamente qualificado, teólogo formado, autor de “The Shrinking Son of Man: How Reliable is the Gospel Tradition” e “The Christ-Myth Theory and Its Problems”), Frank Zindler (editor da Atheist Press e autor da proposição de se retirar o “In God WeTrust” da nota de dólar americana e autor da obra “Through Atheist Eyes: Scenes from a World that Won’t Reason”), Thomas L. Thompson (autor do “The Messiah Myth: The Near Eastern Roots of Jesus and David”), Richard Carrier (também respeitado doutor em teologia, como Price), Archibald Robertson, George A. Wells (historiador moderno inglês, autor de “Did Jesus Exist”, de 1975), Acharya S, D. M. Murock (The Christ Conspiracy: The Greatest Story Ever Sold”, de 1999) e Timothy Freke e Peter Gandy (com “The Jesus Mysteries: Was the “Original Jesus” a Pagan God?”, de 1999),

dentre outros.

O que comprovadamente sabemos sobre o Jesus histórico, independentemente da questão da fé?

Primeiramente, é importante lembrar que tudo que sabemos sobre o Jesus histórico nos foi passado por judeus que viveram entre os anos 30 e 100 (1º. século, portanto), comprometidos com sua religião, decididamente anti-pagã (a começar pela exclusividade do monoteísmo, à época).

Segundo, apesar da falácia que, exceto pela breve citação de Josefo, pouco se registrou sobre Jesus à sua época, vale lembrar que há mais documentação escrita, formal e dissociada (ou seja, não gerada a partir de versões anteriores, mas de forma independente) sobre Jesus Cristo, do que sobre Platão, Julio Cesar, Cleópatra ou Nero, mas ninguém duvida que estes realmente existiram como figuras históricas.

Tudo o que sabemos parte de judeus, com diferentes visões e correntes religiosas, creditando ou refutando um judeu particular, chamado Jesus, no contexto da fé judaica, imbuídos do modo de ser, pensar e agir judaico, vinculados à sua perspectiva cultural e evolutiva como nação.

Não há, apesar da influência natural, semelhança possível dessa realidade judaica fechada, que nunca foi culturalmente dominadora, mas sempre dominada, com as culturas romanas, gregas, egípcias, mesopotâmicas, sírias ou quaisquer outras que tenham tentado transformar cultural e religiosamente o povo judeu ao longo de suas infindáveis dominações.

Isso posto, vamos as fatos sobre a figura do Jesus histórico.

Afinal, quem FOI realmente este judeu chamado Jesus?

Como sabemos o que sabemos sobre o Jesus histórico? Quais fontes nos garantem essas informações?

Antes de evidenciarmos as fontes que corroboram a existência de Jesus, como ser humano histórico, precisamos qualificar como tais fontes podem ser creditadas como legítimas.

São consideradas, pelos historiadores creditados como sérios, cristãos ou não, como fontes históricas relevantes e fidedignas, as fontes que atendem e idealmente se encaixam, em ordem de força de credibilidade, em uma ou mais dentre 4 Categorias:

  • Categoria 1 – Evidências materiais e físicas da existência do indivíduo (pouco se duvida da existência do Papa Francisco, visto diariamente na TV, Internet, jornais, etc, mas sobre Jesus, bem… Jesus não escreveu nada de próprio punho, assim como 99,99% das pessoas da Antiguidade… e sobre as evidências materiais, não há confirmação de nenhum item ou relíquia a Ele ligada, ainda que, por exemplo, a autenticidade do Santo Sudário esteja em discussão há tempos)
  • Categoria 2 – Produtos subsistentes cuja origem conecta ou se associa ao indivíduo em questão (como, por exemplo, os campos de extermínio nazistas e a existência de Hitler)
  • Categoria 3 – Vestígios literários legados pelo indivíduo (Charles Darwin existiu porque conhecemos sua obra, escrita de próprio punho)
  • Categoria 4 – Citações produzidas sobre a pessoa, mas não pela pessoa (os Evangelhos e Jesus)

Jesus viveu há 2000 anos, e não atualmente (como o Papa Francisco), há décadas (como Hitler) ou há poucos séculos (como Darwin). Com esse manancial de informações, parece ser pouco evidente a confirmação da legitimidade da existência de Jesus – e muitos a contestam, como vimos acima. Só que, quando paralelizamos justamente a questão dos 2000 anos com outros personagens históricos daquela época ou anteriores, temos em Jesus muito mais evidências críveis (vide definições abaixo) do que sobre esses personagens aos quais ninguém contesta a existência histórica. Por exemplo, há mais informação escrita sobre Jesus do que sobre Pilatos (que aparece somente em Tácito e também em Josefo, como Jesus aparece, além de aparece em N outras fontes); mas sobre Pilatos não há contestações sobre sua existência.

Com isso, prova-se também não ser verdadeira a informação que o Império Romano documentava tudo que acontecia e, portanto, não surpreende o fato de não haver um relato detalhado produzido pelo Império Romano sobre este simples judeu, chamado Jesus, que, para surpresa dos cristãos da atualidade, que sabem sua história e, em grande monta, o consideram Deus, não causou nada de relevante à época em que viveu, tanto que foi injustamente condenado, crucificado e morto e nada foi feito ou de relevante produzido a respeito (exceto por seus seguidores).

Definindo fontes críveis

Dentre as fontes críveis que podemos ter sobre Jesus, ainda que pertençam à Categoria 4 acima (a mais fraca), podemos apresentar como assumidas e validadas por historiadores sérios (muitos não cristãos), as seguintes 7 qualidades ou crivos:

  1. Variedade de fontes escritas (e isso temos sobre Jesus)
  2. Fontes produzidas em datas próximas à existência do indivíduo (e isso também temos sobre Jesus, já que Paulo escreveu sua primeira Carta – 1ª Tessalonicenses – por volta do ano 49 a 52, portanto, em torno de 20 anos da morte de Jesus. Complementarmente, por exemplo, de maneira aproximada, o Evangelho de Marcos é do ano 65/70, o de Mateus do ano 70/80, o de Lucas do ano 80/85, o de João do ano 90/95 e os Atos dos Apóstolos, do ano 100. É por isso, também (mas não somente), que diversas fontes, como os Evangelhos Apócrifos, são descredibilizadas, uma vez que foram produzidas séculos depois. Como curiosidade, basta lembrar que a primeira fonte escrita sobre Moisés data de 600 anos de sua existência)
  3. Riqueza de detalhes sobre o indivíduo nas fontes existentes (e isso, claramente, temos em todas as fontes ligadas a Jesus)
  4. Imparcialidade das fontes (esse quesito sofre com críticas fortes, uma vez que grande parte dos que escreveram sobre Jesus – mas nem todos, como Josefo ou Justo de Tiberíades – eram ligados a Ele ou criam nele)
  5. Corroboração entre as fontes independentes (ou seja, fontes que contam fatos, histórias e condicionantes de maneira igual – no macro, ainda que não em pequenos detalhes, o que também é comprovável nas fontes sobre Jesus)
  6. Independência das fontes, ou seja, que as fontes não precisam umas das outras para fornecer as informações (esse fato é amplamente verdadeiro no que tange a Jesus, uma vez que Marcos, João, Paulo, Hebreus, o Evangelho perdido Q (de “quelle” ou fonte, em alemão) e outras tantas fontes, além dos evangelhos perdidos M (evangelho independente que influenciou Mateus, além de Marcos e Q) e L (evangelho independente que influenciou Lucas, além de Marcos e Q)
  7. Disfuncionalidade de Interesse, quando o conteúdo dos fatos e contextos contados sobre o indivíduo depõe contra a lógica sócio-cultural estabelecida naquele momento/região, de forma que não fosse natural se escolher contar determinada história, daquele jeito, naquele momento, embasando-a em determinados argumentos, a fim de se ter adesões imediatas em grande escala… por exemplo, atribuir a Maria Madalena a prerrogativa do testemunho da ressurreição é quase pedir para que o fato não fosse acreditado em hipótese alguma, já que – além do fato espetacular em si da ressurreição ser motivo natural de dúvida – a mulher, na Israel do ano 30 (e em todo mundo praticamente da Antiguidade) era vista como um ser menor, não digno de credibilidade, pouco culta e marginalizada na sociedade).

Isso posto, são várias as fontes sobre Jesus que atendem aos crivos acima:

  • Referências não cristãs
  1. Romanas (nas 3 fontes abaixo, Jesus não é citado pelo nome, mas sim seus seguidores)
    1. Plínio, o Jovem (79 d.C.), governador de Bitínia e Ponto na Ásia Menor (atual Turquia) e sobrinho de Plínio, o Velho, autor da Carta 10 de 112 d.C., escrita ao Imperador Trajano, onde sugere que os cristãos praticavam canibalismo, cantavam hinos e faziam oferendas a um tal de Cristo, que era tratado como um “deus”
    2. Suetônio, biógrafo romano especializado em imperadores (“As vidas dos doze Césares, de 115 d.C.), que, ao escrever sobre o Imperador Cláudio (41 a 54 d.C.) cita agitadores instigados por “Chrestus” (que pode ser Jesus Cristo, escrito com erro ortográfico – algo comum à época – ou alguém chamado Chrestus, sendo assim, fonte relativamente mais fraca)
  • Tácito, historiador romano que escreveu a famosa obra Anais em 115 d.C., descrevendo a história do Império Romano de 14 a 68 d.C., incluindo o reinado de Nero em 64 d.C.. Tático nos conta que Nero, para jogar a culpa do incêndio que promoveu em Roma ao tentar impor sua visão arquitetônica, escolheu acusar os cristãos, determinando sua prisão e os condenou à morte, promovendo um verdadeiro show de horror ao queimar cristãos vivos cobertos de piche e usá-los como tocha para iluminarem os jardins da cidade, ou ao enrolar os cristãos em peles frescas de animais e jogá-los aos cães selvagens, que os destroçavam
  1. Judaicas (só há Josefo, que nunca se converteu ao cristianismo e que colaborou com o imperador Tito, de Roma, contra os judeus, mas que cita Jesus formalmente pelo nome)
    1. Flávio Josefo – historiador palestino e principal fonte sobre a Palestina do século I, escreveu os 8 volumes que formam a obra “Guerra dos Judeus” e também a obra “História dos Hebreus”, concluída em 93 d.C., que trata da história do povo hebreu desde Adão. Em 2 ocasiões ele se refere formalmente a Jesus de Nazaré:
      • a primeira citação, denominada Testimonium Flavianum, é uma passagem altamente contestada pelos historiadores, já que ele descreve a vida de Jesus e o elogia de maneira a endeusá-lo (e, justamente por isso, é tratada como algo posteriormente enxertado em sua obra, já que como não se convertera ao cristianismo, não poderia ter endeusado Jesus);
      • a segunda citação, esta sim certamente fidedigna, está no livro 20 da “História dos Hebreus”, em que narra um evento ocorrido no ano 62 d.C., antes da revolta dos judeus, quando o líder civil e religioso de Jerusalém, o sumo sacerdote Ananus, cometeu abuso de poder ao ordenar a execução ilegal de um tal Tiago, referido como “irmão de Jesus, que é chamado de o Messias”.
    2. Obs: vale lembrar que, ainda que alguns vinculem a Jesus, tanto os manuscritos do Mar Morto (de I d.C.), como os escritos do filósofo judeu Fílon (morto em Alexandria no ano 50 d.C.) não falam de Jesus em momento algum
  1. Rabínicas (certamente menos relevantes, mas interessantes como curiosidades históricas)
    1. Talmude Judaico, coleção de materiais do judaísmo primitivo, independentes entre si – disputas jurídicas, folclores, costumes, ditados, etc – que citam Jesus de maneira especialmente engraçada, dentre elas como sendo um mago que adquiriu poderes de magia negra no Egito, ou alguém reuniu 5 discípulos e foi enforcado na época da Páscoa
  • Referências cristãs
  1. Evangélicas, conforme já citadas e que cumprem os 7 crivos acima:
    1. Evangelhos: Marcos, Q, L, M, João
    2. Cartas de Paulo (pelo menos as 7 comprovadamente escritas por Paulo, das 13 a ele atribuídas)
  • Atos dos Apóstolos
  1. Carta aos Hebreus
  2. Epístolas de Tiago e Pedro
  3. Apocalipse de São João

Observação: é importante marcar que, para fins de atestado histórico, os Evangelhos Canônicos de Mateus e Lucas são considerados menos relevantes, pois não são independentes, já que utilizaram fontes independentes como Marcos, Q, L (Lucas) e M (Mateus) na sua composição de enredo, histórias e mensagens.

  1. Não Evangélicas
    1. Didaqué
    2. Atos de Tomé e Evangelho de Tomé (provavelmente do ano 110 a 120 d.C.)
  • Carta a Diagoneto
  1. Pápias – líder da Igreja no início do século II, autor da obra hoje perdida “Exposição dos Oráculos do Senhor”, escrita entre os anos 120 e 130 d.C., mas citada (ainda que se referindo ao autor como alguém de “inteligência curta”) na obra de Eusébio, grande historiador da Igreja do século IV em “História Eclesiástica”, 3,39.
    • Pápias é importante, pois afirma ter conhecido e conversado com as pessoas que conheceram e haviam se relacionado com os seguidores de Cristo, os apóstolos
  2. Inácio de Antioquia – um dos principais autores do cristianismo primitivo, bispo da importante Igreja de Antioquia na Síria, viu-se implicado na perseguição aos cristãos em 110 d.C., foi preso, condenado e jogado às feras selvagens. A caminho de seu martírio, escreveu 7 cartas (6 às Igrejas da Ásia Menor e 1 à Igreja de Roma) que chegaram aos dias de hoje), extremamente alinhadas ao teor do Evangelho de João, com cunho anti-docetista, ou seja, instruindo os cristãos a manterem a unidade e combaterem a heresia docetista, que pregava que Jesus nunca existira em carne, mas somente em espírito
  3. I Clemente – a carta I Clemente, escrita, em torno de 90 d.C, pelos cristãos de Roma à Igreja de Corinto, também é evidência clara de material produzido no cristianismo primitivo e tinha como finalidade convencer a Igreja de Corinto a restaurar seus presbíteros. Cumpre lembrar que esta carta cita formalmente conteúdos da 1ª. Carta de Paulo aos Coríntios
  • Historiadores e Teólogos cristãos dos séculos II e III, como Justino Mártir, Tertuliano e Orígenes, considerados hoje os Padres/Pais da Igreja

Em resumo, historicamente, sobre o Jesus histórico, podemos dizer que:

Pré-Ministério

  • Jesus, o Nazareno, foi um pregador judeu itinerante e apocalíptico,
    • nascido em Nazaré, na Galileia (atual Palestina), e não em Belém, na Judeia (atual Israel),
    • entre os anos 6 e 4 a.C., e não no ano 0,
    • filho de Maria e José,
    • que tinha irmãs e irmãos, dentre os quais certamente Tiago, Judas, Simão e provavelmente Tomé, o Dídimo (palavra hebraica que quer dizer gêmeo ou “que nasceu do mesmo parto”),
  • seguidor e batizado por seu primo João Batista
    • este também um profeta apocalíptico que pregava a conversão imediata para o Reino de Deus pelo arrependimento dos pecados, uma vez que cria que o fim estava próximo e o Deus Todo Poderoso iria intervir naqueles dias para evitar que as forças cósmicas do mal dominassem e destruíssem toda sua criação (com a humanidade incluída).

Durante seu Ministério

  • Aos 30 anos de idade, já batizado e dominado pela visão apocalíptica, no início de sua missão evangelizadora, aglutinou um grupo de 12 discípulos que o acompanhou em seus três anos de pregação pública,
    • muitos deles representantes dos segmentos mais pobres e marginalizados da população judaica (analfabetos, coletores de impostos, pescadores, etc.).
  • Um desses discípulos – Judas Iscariotes – o traiu e entregou às autoridades religiosas judaicas por 30 moedas de prata.
  • Jesus tinha fama de milagreiro, era conhecedor da Lei de Moisés,
    • mas a relativizava em prol do que definia como a Lei do Amor (“amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como eu vos amei”) e
    • correntemente condenava as práticas religiosas e sociais que oprimiam a população mais pobre e os chamados pequeninos.
  • Por conta dessa postura aberta e de confronto à ética judaica estabelecida a partir da legalização e deturpação da Lei de Moisés e da mobilização social que crescentemente representava, Jesus se colocou em rota de colisão com os líderes judeus, que o acusavam de agitador e blasfemo,
    • e que acabaram induzindo os romanos à sua prisão, condenação, crucificação e morte,
    • argumentando como razão para tal medida a manutenção da ordem e da paz no Império Romano, insinuando uma suposta e inexistente ambição de Jesus em se tornar Rei de Israel e, portanto, ocupar o lugar de César.
    • Tudo isso se deu à época em que Pôncio Pilatos (que governou a Judeia de 26 a 36 d.C.) era o Governador da Judeia e foi ele quem conduziu o julgamento público de Jesus e determinou sua sentença de morte.

Pós- Ministério

  • Após a sua morte, seus discípulos acreditaram verdadeiramente que Ele ressuscitou dos mortos, e que era, portanto, tanto o Messias judaico, como o Anjo do Senhor, como o Filho de Deus e o redentor da humanidade, e assumiram como missão de vida dar continuidade à sua mensagem,
    • pregando e documentando fatos, memórias, idéias e doutrinas, criando assim uma religião denominada cristianismo, que, com suas diversas igrejas e denominações, atualmente responde por mais de 2 bilhões de fieis no mundo todo, especialmente no Ocidente.
    • Muitos desses discípulos, assim como outros que os sucederam, foram perseguidos por judeus e pelos romanos e deram sua vida por seu Mestre e sua mensagem de perdão, conversão e amor, tornando-se assim mártires ou sinais vivos da crença na fé em Cristo, que converte, restaura, salva e garante a vida eterna.
  • Jesus é, atualmente, o nome mais conhecido em todo mundo e tem sido, ao longo desses 2000 anos, o tema predileto de histórias, cultos, crenças, crendices, sincretismos, seitas, religiões, análises, pesquisas e discussões acadêmicas, técnicas, históricas e teológicas.

A história de Jesus, passo a passo

O Nascimento Virginal de Jesus nos Evangelhos

Muitos dos fatos ligados ao nascimento de Jesus são apresentados integral ou parcialmente nos Evangelhos Sinóticos e no Evangelho de João que, assim como o de Marcos, por exemplo, não cita que Jesus nasceu de uma virgem. Os Evangelhos Apócrifos também apresentam alguns relatos, especialmente relacionados à infância de Jesus.

Mateus, autor do Evangelho mais focado e conectado às origens judaicas, enfatiza a dimensão messiânica do advento ao colocar Jesus como descendente de uma linhagem que tem início em Abraão, o primeiro dos patriarcas, deixando claro que Jesus é o Messias esperado pelo povo judeu, tão decantado em todo Antigo Testamento, pelos profetas, reis e pelas histórias do povo de Israel.

Em Lucas, o anjo Gabriel assegura à Maria que Jesus está destinado a assumir o trono de Davi, sobre o qual ele reinará para sempre, e conecta genealogicamente Jesus a Adão, primeiro homem criado por Deus no Gênesis, mostrando que Cristo não é somente Messias para os judeus, como cria Mateus, mas para toda a Humanidade (teologia que combina com a visão de Paulo e com a contida na Carta aos Hebreus, que diz que Jesus é sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque e não de Abraão).

Paulo, por sua vez, reforça a linhagem que parte de Abraão e consuma-se em Jesus, mas é ele o Apóstolo que mais defende a universalidade da mensagem do Evangelho, da graça e da salvação conquistada por Cristo, incluindo-se os não judeus, então considerados pagãos, ímpios e impuros perante a Lei de Javé passada por Moisés aos judeus.

Marcos (1, 1-11) e João (1, 6-8) introduzem a figura de Jesus através das profecias de João Batista.

Já o nascimento virginal de Jesus é um dogma do cristianismo que sustenta que Maria concebeu Jesus ainda virgem, milagrosamente por ação do Espírito Santo, sem qualquer envolvimento de seu futuro esposo José. Também no islamismo essa doutrina está presente, mas a concepção teria sido por ação de Alá (o equivalente, no islamismo, ao Deus-Pai no judaísmo e no cristianismo).

Essa doutrina, fortemente presente nos Evangelhos de Mateus (Mt 1,18) e Lucas, foi universalmente adotada na Igreja cristã já no século II e aceita por todas as igrejas históricas, como a Igreja Anglicana, a Igreja do Leste, a Igreja Ortodoxa, as Igrejas Protestantes e, claro, a Igreja Católica Apostólica Romana, tanto é que está presente nos credos ecumênicos nicenoconstantinopolitano (“e por nós homens, e para nossa salvação, se encarnou no seio da Virgem Maria”) e apostólico (“nasceu da Virgem Maria”).

Entretanto, ambos Marcos, autor do Evangelho mais comprometido com a história factual de Jesus, e João, autor do Evangelho mais teologicamente profundo em conceitos cristológicos, não fazem questão de valorizar esse fato.

Na Igreja Católica Romana e na Igreja Ortodoxa, o termo “nascimento virginal” não significa apenas que Maria era virgem somente quando concebeu e deu à luz, mas também que ela teria permanecido virgem por toda a vida, uma crença atestada desde o século II (vide Virgindade Perpétua de Maria).

Essa doutrina sofre contestações diversas até hoje, principalmente por conta dos chamados irmãos de Jesus citados nos Evangelhos, supostamente somente filhos de José. De qualquer forma, o fato de Maria ter se mantido virgem posteriormente à concepção de Jesus é infinitamente menos relevante, dado que era casada formalmente com José (e, ao engravidar, não teria cometido pecado), do que sua virgindade antes e durante a concepção de Jesus.

Vale lembrar que a Igreja Ortodoxa não tem dogmas romanos ou doutrinas mariológicas; por exemplo, para eles, Maria é simplesmente o caminho vivo para se chegar a Jesus. Em sua concepção, que é mais acertada, toda devoção mariana deve ser focada em Cristo (cristocêntrica, portanto) e não nela, Maria. Para muitos de nós, católicos de baixo conhecimento doutrinário, ainda erroneamente, muitas vezes a fé se torna agnocêntrica (centrada na divinização de uma pessoa, santo ou imagem), já que muitos “adoram” Maria como se fosse ela mesma a divindade merecedora de adoração.

Data de Nascimento e Natal

Não sabemos exatamente quando Jesus nasceu. Mais precisamente, sua encarnação física neste mundo deve ter se dado entre os anos 6 e 4 a.C.. Certamente, o dia é impossível saber.

Essa diferença de calendário (estaríamos hoje entre os anos 2009 e 2011) se deve porque o cálculo usado para o princípio do nosso tempo – baseado no nascimento de Jesus – foi efetuado pelo monge São Dionísio, o Exíguo (Dionysius Exiguus), que errou nas suas estimativas em alguns anos, conforme referido pelo próprio Papa Emérito Bento XVI, em seu recente livro dedicado aos primeiros anos da vida de Cristo.

A Bíblia, por sua vez, não traz uma data específica para o nascimento de Jesus. São Dionísio parece ter baseado suas estimativas nas referências vagas quanto à idade com que Jesus começou a pregar e ao fato de ter sido batizado durante o tempo do Imperador Tibério.

Sobre o dia 25 de Dezembro, Natal dos cristãos, a data não tem nada a ver com o real nascimento de Jesus. Os cristãos romanos aproveitaram uma importante festa pagã realizada por volta do dia 25 de dezembro e “cristianizaram” a data, comemorando o nascimento de Jesus pela primeira vez no ano 354.

A tal festa pagã, chamada de Natalis Solis Invicti (“nascimento do sol invencível”), era uma homenagem ao “deus” persa Mitra, popular em Roma. As comemorações aconteciam durante o solstício de inverno, que era o dia mais curto do ano. No hemisfério norte, o solstício não tem data fixa – ele costuma ser próximo de 22 de dezembro, mas pode cair no dia 25.

Local de Nascimento

Mateus e Lucas queriam comprovar às comunidades judaicas do século I que Jesus era o Messias judaico e, para isso, Ele teria que ter nascido na terra de Davi; portanto, em Belém, na Judeia, conforme as escrituras (especialmente em Miquéias 5, no Antigo Testamento: “E tu, Belém Éfrata, posto que pequena entre os milhares de Judá, de ti me sairá o que governará em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”).

O texto de Lucas (cf. Lc 1, 26-38), entretanto, afirma que a anunciação aconteceu em Nazaré: “Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria… O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus.”

É cada vez mais provável e aceito pelos historiadores, estudiosos e teólogos sérios que Jesus tenha nascido mesmo em Nazaré, na Palestina, durante o final do reinado de Herodes Antipas.

Isso muda tudo em termos históricos, políticos e teológicos, porque apesar de judeu, Jesus não seria de Judá, o Reino do Sul, mas palestino e, naquela época, a Palestina era considerada região pagã (atualmente de maioria muçulmana), antigo Reino do Norte de Israel, desmembrado e rompido com Judá (atual Israel).

Essa questão geográfica é extremamente importante, porque redireciona sensivelmente a origem, missão e razão existencial da vinda de Jesus.

Ao contrário dos judeus, que entendiam Javé como o Deus da nação de Israel, Jesus vem nos apresentar ao Deus-Pai, criador de tudo que existe no universo, ou seja, no céu, na terra e embaixo de terra e até de mundos e planetas que porventura possam existir com vida no Universo.

Deus, portanto, é Deus de todos os povos, Pai de todas as nações. Por isso, apesar de Mateus procurar conectar genealogicamente Jesus ao Rei Davi (casa de onde viria o Messias judaico) e ao pai da fé Abraão, Lucas o conecta a Adão, garantindo que Jesus é Pai de todos os seres humanos, uma vez que Adão seria o primeiro ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus.

No livro de Hebreus, Jesus é reconhecido como sacerdote da ordem de Melquisedeque (cf. Hb 7), rei de Salém e sacerdote de Deus (Gn, 14-18), que abençoou Abraão e dele recebeu o dízimo depois da vitória do patriarca contra Codorlaomor. Sobre Melquisedeque, diz-se em Hebreus 7 que “sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre”.

Condições do Nascimento

Considerando toda a história e tradição do povo de Israel, é mais aceito que Jesus tenha nascido em uma estalagem para viajantes (menos provável) ou em um aposento de uma família que acolhera José, Maria e a criança (mais provável), e não em uma gruta, história que passou a ser incorporada na tradição a partir de textos tirados do apócrifo Proto-Evangelho de Tiago, escrito por volta do ano 200 d.C., por alguém usando o nome de Tiago, irmão de Jesus, mas que não era judeu e pouco conhecia da geografia e das tradições judaicas.

Esse livro conta a história do nascimento e vida de Maria até o nascimento de Jesus e é com base nessa história que ficamos com a ideia de que Maria teria entrado em trabalho de parto na noite em que chegou a Belém, que Jesus teria nascido em uma gruta, que Maria estaria sozinha na hora do nascimento, que nessa época José era um idoso que tinha outros filhos, e que Maria não só era virgem antes do nascimento de Jesus, mas que continuou virgem o resto da vida. Alguns desses conceitos foram incorporados às histórias tradicionais das crenças cristãs, especialmente as católicas, ortodoxas e protestantes.

Outras questões curiosas em torno do nascimento de Jesus são também contestadas pelo Papa Emérito Bento XVI, como a existência de animais na cena bíblica do nascimento de Jesus, conforme é habitualmente reproduzida nos presépios de Natal. Estes são aí representados mais com um teor espiritual e teológico do que de cena real. Entretanto, ele reafirma cabalmente a virgindade de Maria como uma verdade “inequívoca” da fé cristã.

A Infância de Jesus

A infância de Jesus provavelmente não teve nada de extraordinário.

Jesus viveu na atmosfera simples e familiar própria das aldeias da Galileia de sua época, onde, conforme Lucas “Jesus se desenvolvia em sabedoria, estatura e graça na presença de Deus e de todas as pessoas” (Lc 2,52).

Ainda assim, muito pouco se sabe sobre a infância de Jesus e muito do que se tem documentado está nos evangelhos apócrifos, que não são reconhecidos pela Igreja como fontes de fé, uma vez que estão repletos de informações não verdadeiras, ou mesmo contraditórias à própria Revelação, apesar da relativa contribuição histórica e da forte curiosidade que geram.

Algumas contradições podem ser identificadas nos próprios evangelhos acerca dos primeiros anos de vida de Jesus. O evangelho canônico de Lucas, por exemplo, conta que Jesus nasceu numa manjedoura em Belém, província da Judeia, durante a viagem de José e Maria de Nazaré a Belém, para comparecer a um censo promovido pelo Império Romano. Conta também que os anjos o proclamaram salvador de todas as pessoas e que pastores vieram adorá-lo.

Já no relato de Mateus, astrônomos (e não reis magos, outra incorporação tardia da Tradição) seguiram uma estrela até Belém para levar presentes a Jesus, uma vez que havia nascido o “rei dos judeus”. O rei Herodes ordenou em seguida o massacre de todos os garotos com menos de dois anos da cidade, mas a família de Jesus conseguiu escapar para o Egito e, depois que Herodes morreu, voltou a Nazaré.

A questão com ambas as versões é que muito provavelmente Jesus não nasceu em Belém, assim como não há registro histórico de ter havido censo no Império Romano na referida data (Lucas) ou mesmo de que Herodes tenha promovido tal massacre (Mateus).

Língua falada por Jesus

É certo que Jesus só falava aramaico, a língua mais falada na Palestina em sua época. Com educação restrita, por que era um pobre camponês, Jesus não falava grego, não falava latim ou qualquer outra língua.

Isso é importante, porque diversas passagens dos Evangelhos, escritos para os cristãos em hebraico (Antigo Testamento) e grego (Novo Testamento) não poderiam se referir a Jesus ou terem sido citadas ou ditas por Jesus, uma vez que Ele não sabia se comunicar nessas línguas. Um exemplo é a passagem que revela a conversa de Jesus com o fariseu Nicodemos.

No Evangelho de João, escrito em grego, Jesus se encontra em determinada noite com um certo Nicodemos, judeu importante que tinha respeito e apreço por Jesus, a ponto de chamá-lo de Mestre, mas não tinha coragem de segui-lo, pois era membro do Sinédrio.

Em certo momento da conversa (Jo 3,2-10), Nicodemos afirma saber que Jesus ensinava da parte de Deus, pois ninguém poderia realizar os sinais que estava fazendo se Deus não estivesse com Ele. Jesus então declara que “ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo”.

Obviamente, Nicodemos entende a frase de Jesus ao pé da letra e pergunta “Como alguém pode nascer, sendo velho? É claro que não pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e renascer!”, no que Jesus prontamente responde “Digo a verdade: Ninguém pode entrar no Reino de Deus se não nascer da água e do Espírito. O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito. Não se surpreenda pelo fato de eu ter dito: É necessário que vocês nasçam de novo. O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito”. Então, Nicodemos perguntou: “Como pode ser isso?” e Jesus respondeu “Você é mestre em Israel e não entende essas coisas?”

Essa passagem, extremamente educativa e de enorme relevância teológica, tem um problema fundamental: ela só funciona, com este sentido acima, no grego. Em grego, a expressão nascer de novo, tanto significa nascer de cima/do alto, como nascer novamente, e é esta dubiedade que pega Nicodemos e gera toda a especificidade da conversa. Só que Jesus não falava grego, então ele jamais poderia ter dito tal frase, com este sentido duplo, desta forma, dado que em Aramaico, nascer de novo é, simplesmente, nascer de novo.

Educação de Jesus

Que Jesus sabia ler, certamente é fato, seja porque temos a passagem de Jesus pregando no Templo com 12 anos, seja porque em outras passagens se confirma que Ele sabia ler: “segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler e lhe entregaram o livro do profeta Isaías…” (Lc 4,16-17).

Por outro lado, é possível que, apesar de certamente saber ler, Jesus não soubesse escrever (ainda que em João 8,1-11 haja uma clara menção sobre ele “escrever com o dedo na terra”). Isso, apesar de estranho, é completamente natural, já que na Antiguidade, aprender a ler e a escrever eram duas disciplinas de aprendizado dissociado (diferente do que ocorre nos dias de hoje).

Também é quase certo que seus discípulos não soubessem nem ler e nem escrever. Na Palestina do 1º Século, apenas 3% dos judeus palestinos eram formalmente educados: por isso, “… como é que este é letrado, se não estudou?”, se perguntavam os judeus quando se deparavam com Jesus pregando (Jo 7,15).

Profissão de Jesus

Apesar de a Tradição associar Jesus à profissão de carpinteiro, o que não estaria de todo errado, aparentemente há um reducionismo em torno de suas atividades. O texto original bíblico em grego utiliza a palavra “tecton”, citada em Marcos, ou escrita “tekton”, em Mateus, que se refere mais provavelmente a um profissional de serviços gerais, especialmente ligado ao beneficiamento de pedras.

Assim, Jesus era, até iniciar seu ministério aos 30 anos, mais provavelmente, um marceneiro e devia participar de projetos e construções de pontes, casas, templos e afins, algo que hoje poderia lhe render um futuro como arquiteto ou engenheiro.

Jesus e a Lei

Jesus era profundo conhecedor do judaísmo. Como judeu, seguia a Lei de Moisés (escrita) e estava sujeito às 613 leis orais dos fariseus, originalmente desenvolvidas para o perfeito cumprimento dos 10 mandamentos escritos por Moisés nas pedras do Monte Sinai.

Mesmo sendo seguidor da Lei, Jesus passou a relativizar e requalificar a Lei, como por exemplo, realizando a cura de um doente em um Sábado, cf. Lucas 14: “Num sábado, Jesus foi comer na casa de certo líder dos fariseus e todas as pessoas o observavam. À sua frente se achava um homem muito inchado, que sofria de hidropisia. Jesus então perguntou aos professores da lei e aos fariseus: “É permitido curar no sábado, ou não?” Mas eles não responderam nada. Jesus então segurou o homem, curou-o e depois o mandou embora. Depois disse a eles: “Imaginem que vocês tivessem um filho ou um boi que caísse num poço num sábado. Será que vocês não o tirariam de lá, mesmo sendo sábado? E eles não puderam responder.”

Atualmente, é mais aceita a ideia de que Jesus, de fato, respeitasse a Lei, dentro daquilo que compreendia e concordava, ao invés de rechaçá-la por completo, conforme se pode ver em Mateus 5,17-20, onde afirma que veio cumpri-la: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, mas para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, pois que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.”

Em Mateus (Mt 22, 37-39), Jesus afirma a um doutor da Lei que lhe pergunta qual é o maior dos mandamentos de Deus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

Em Marcos (Mc 12, 30-31), Jesus também redefine e reduz os 10 mandamentos de Moisés a somente dois: “Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.”

Já em João, o mais cristocêntrico dos evangelistas, aquele que nos apresenta um Jesus auto-centrado, agindo como verdadeiro e legítimo representante do Pai, falando em primeira pessoa, estes mandamentos são levados a um patamar ainda mais perfeito, uma vez que Jesus substitui a referência do amor ao próximo como o amor de cada um por si próprio pelo amor dele, Jesus, por cada um de nós (o amor infinito, que simultaneamente dá a vida (física) e garante a vida (eterna) a cada um de nós): “Se guardardes os meus mandamentos, sereis constantes no meu amor, como também eu guardei os mandamentos de meu Pai e persisto no seu amor. Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa. Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo (Jo 15,10-12)”.

Jesus Pregador Apocalíptico

Jesus começou a pregar aos 30 anos. Seu itinerário durou 3 anos, quando foi crucificado e morto pelos romanos, aos 33 anos.

Na Israel do 1º século, havia 4 grandes correntes sócio-religiosas: os saduceus (grupo formado pelas famílias mais ricas e nobres, do qual emergiam os sacerdotes do Templo), os fariseus (doutores da lei), os essênios (grupo gnóstico e ascético, que vivia afastado da sociedade, por entender que devia ficar longe da impureza para mais bem se aproximar de Deus) e os “outros” ou a quarta filosofia, segundo Josefo, grupo caracterizado por judeus anti-romanos (como os zelotas), que esperavam por um Messias guerreiro que libertaria o povo judeu e expandiria a glória do povo de Deus para todos os cantos da terra.

Jesus não pertencia a nenhum dos 4 grupos. Como a imensa maioria da população, Jesus era pobre, morava em uma vila pobre e não estava conectado às castas ou silos da sociedade judaica.

Entretanto, é cada vez mais aceita a idéia de que Jesus era, de fato, um judeu apocalíptico, linha bastante presente no período em que Jesus viveu e que, além de Jesus, teve como expoentes Daniel, João Batista e Paulo.

Os apocalípticos acreditavam que o fim estava próximo, que as forças do mal haviam dominado a terra e que Deus, nos céus, iria intervir cosmicamente, enviando um salvador (o Anjo do Senhor, o Messias) e seu exército de anjos para restaurar o bem na Terra, banindo o mal definitivamente. Caberia a este Messias, no final dos tempos, no último dia, julgar os seres-humanos, salvar os convertidos, oprimidos, puros e sem pecado e condenar ao inferno os pecadores e opressores.

São diversas as passagens nos Evangelhos em que Jesus expressa doutrinas embasadas em forte atmosfera apocalíptica de final dos tempos, muitas vezes (especialmente em Mateus, onde grifado abaixo), inclusive, se referindo a um outro “messias” ou “anjo do senhor” ou ainda “filho do homem” e não a si próprio como este Messias/Anjo do Senhor/Filho do Homem, senão vejamos:

  • Mateus 24,34:“em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas essas coisas se cumpram.”
  • Marcos 13,30: “na verdade vos digo que não passará esta geração, sem que todas estas coisas aconteçam.”
  • Lucas 21,32: “em verdade vos digo que não passará esta geração até que tudo aconteça.”
  • Mateus 10,23: “quando pois vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel sem que venha o Filho do Homem.”
  • Mateus 16,27-28: “porque o Filho do Homem há de vir na glóriade seu Pai, com os seus anjos; e então retribuirá a cada um segundo as suas obras. Em verdade vos digo, alguns dos que aqui estão não provarão a morte até que vejam vir o Filho do Homem no seu ”
  • Marcos 8,38 a 9,1: “porquanto, qualquer que, entre esta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos. Dizia-lhes também: Em verdade vos digo que, dos que aqui estão, alguns há que não provarão a morte sem que vejam chegado o reino de Deus com poder.”
  • Mateus 26,64:“é como disseste; contudo vos digo que vereis em breve o Filho do Homem assentado à direita do poder, e vindo sobre as nuvens do céu”.

Assim como Jesus, os cristãos primitivos (especialmente identificados nos Atos de Apóstolos, escrito por Lucas, e nas cartas do apocalíptico Apóstolo Paulo) também criam que estavam vivendo no final dos tempos:

  • Coríntios 15,51-52: “eis aqui vos digo um mistério: na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarãoincorruptíveis, e nós seremos transformados.
  • 1 Tessalonicenses 4,14-15:“dizemo-vos, pois, isto pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, de modo algum precederemos os que já dormem”.
  • 1 Coríntios 10,11: “ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos”.
  • Hebreus 9,26:“… mas agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo.”
  • Hebreus 10,25:“não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns, antes admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais, quanto vedes que se vai aproximando aquele dia.”
  • Atos 2,15-17: “estes homens não estão embriagados, como vós pensais, sendo a terceira hora do dia. Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel: e nos últimos diasacontecerá, diz deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos terão sonhos”.
  • 2 Pedro 3,3-4: “… nos últimos diasvirão escarnecedores com zombaria andando segundo as suas próprias concupiscências, e dizendo: “Onde está a promessa da sua vinda? Porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação.”

Porque é importante compreendermos que Jesus se entendia apocalíptico?

Porque, como tal, Jesus imaginava que o fim estaria próximo, que urgia a conversão de todos, que a redenção seria para aquela geração (e as anteriores) e não para as futuras, uma vez que o futuro não existiria mais como uma sequência de seu presente e passado, mas seria totalmente redefinido pelo advento do Apocalipse e o banimento do mal da face da Terra.

Isso é especialmente importante quando pensamos no conceito de Vida Eterna e na segunda vinda de Cristo (Parusia), uma vez que os discípulos também entendiam que o Mestre, que ascendera aos céus em corpo glorioso, voltaria rapidamente para buscá-los. Por quê? Porque com o tempo, com os anos, com os séculos, com os discípulos morrendo assassinados ou de morte natural, à medida que Jesus “não voltava”, o conceito de vida eterna com Deus foi se modificando de uma perspectiva horizontal (dessa vida para a próxima vida nesta Terra, Jerusalém), para uma perspectiva vertical (dessa vida na Terra, para a vida eterna, com o Pai, no céu).

Como confirmação da crença dos discípulos em um “prêmio” por se anularem aderindo integralmente à agenda de Jesus, largando suas famílias, anseios e desejos e, em última instância, abrindo mão de suas próprias vidas (dado que se acredita que todos, exceto João, foram martirizados), vale lembrar que Jesus prometeu-lhes que se sentariam em tronos na Jerusalém celeste, ao lado de Deus-Pai, numa referência clara de que os 12 discípulos renascidos na fé seriam, na Nova e Eterna Aliança, os substitutos perfeitos das 12 tribos pecadoras da Jerusalém terrestre, frutos da Primeira Aliança de Deus com Abraão.

Jesus Revolucionário Sócio-Religioso, causa de sua condenação e morte

Jesus atualmente pode ser enxergado como um revolucionário social não porque se definisse como tal, mas por decorrência de sua missão e pregação.

Este não era seu intuito. Basta percebermos que não eram frequentes ou relevantes as intervenções ou críticas de Jesus ao sistema político-econômico de sua época. Prova disso é o estranho fato de Jesus, por exemplo, não criticar em momento algum o sistema escravagista comum à época, ou mesmo as guerras. No caso da escravidão, por exemplo, a que lhe interessava era a escravidão moral imposta pelo conceito sufocante de pecado associado aos 613 preceitos da Lei oral, e não a escravidão factual de condição de casta social.

Ao contrário, seu ângulo social advinha sensivelmente de suas posições de confronto ao sistema religioso, seu campo de interesse, foco de pregação.

Por isso, é errado dizermos que Jesus veio para pregar uma revolução sócio-política. Ele não era e não queria ser um líder político. Não era o Messias esperado pelos judeus, na acepção humana e real (da realeza) de Messias.

Era, sim, um líder religioso, preocupado com a reconversão de Israel ao Deus-Javé, preocupado com o Apocalipse que estava por vir. Como decorrência, sua mensagem de cunho religioso era tão contundente e tão transformadora, tão socialmente libertadora e inclusiva, que mesmo sem querer Ele acabou assumindo um caráter de líder político e mobilizador social.

Foi o iminente risco percebido em torno dessa evolução de categorização de Jesus de pregador religioso anti-sistema farisaico da Lei Oral para líder político-social anti-Roma e Cesar, promovido pelos líderes religiosos judaicos junto às autoridades romanas que o levou à condenação e morte.

Assim, podemos dizer que é verdadeiramente legítima a preocupação em querer entender as reais intenções das ações de Jesus perante a Lei e sua deturpação, visto que as atitudes de Jesus não o colocam em oposição à Lei escrita de Moisés (como Ele mesmo diz em Mt, 5,17: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os profetas; não vim revogar, mas cumprir.”), mas sim contra os preceitos estabelecidos pelos fariseus e a prática religiosa Judaica que passou a ser manipulada por e em prol dos interesses das autoridades judaicas vindas do farisaísmo, a partir de suas interpretações absurdas daquilo que Deus queria que o homem fizesse para o perfeito cumprimento de sua Lei.

Como por exemplo: se Deus dizia na Lei que os judeus deveriam guardar o Sábado, isso significava, por exemplo, que eles não poderiam trabalhar e deveriam jejuar em dia de Sábado. Entretanto, se algum judeu quisesse ir de sua casa à casa de algum parente, estaria ele trabalhando ao movimentar seu corpo ou visitar um irmão? Ou ainda, se ao entrar na casa deste parente, um sobrinho lhe perguntasse como poderia selar um jumento e este o ensinasse verbalmente, estaria ele trabalhando como “professor” do garoto? Qual, afinal, era o limite de cada mandamento da Lei escrita?

Foi justamente essa ausência de detalhes nos 10 mandamentos escritos por Moisés que fez com que os estudiosos da Lei – os fariseus, inicialmente na melhor das intenções de construírem regras para que o povo pudesse cumprir a Lei com perfeição e assim agradar a Deus perfeitamente, viessem a desenvolver os 613 preceitos ou o a chamada Lei Oral.

Com o tempo, foram essas leis orais que acabaram por transformar a Lei de Deus em lei dos homens, de opressão, dominação e morte, e era exatamente isso que Jesus veementemente combatia.

Por isso que Jesus debate com os fariseus, além da lei do sábado, a questão do apedrejamento da mulher adúltera, a lei do puro e impuro, a lei do que se pode ou não comer, de como se deve vestir, dentre outras.

Para podermos entender verdadeiramente a mudança que Jesus propunha na prática da Lei de Moisés devemos ter em mente a situação religiosa, social e política da Palestina em seu tempo, dominada pelo Império Romano e pelo sistema religioso judaico, somando-se num sistema de leis políticas, sociais e econômicas de morte.

Além disso, também se faz imperativo compreendermos a situação e a condição do homem deste tempo e seus anseios, angústias, possibilidades, crenças, certezas e costumes.

Jesus, em sua época, conseguiu distinguir, de modo claro, as estruturas que sustentavam as leis de morte, defendidas pelos fariseus e praticadas pelos sacerdotes (saduceus), daquelas leis que geravam vida.

Na passagem do apedrejamento da mulher adúltera, surge fortemente a questão da reinterpretação que Jesus faz das leis farisaicas do puro e impuro. A mulher apanhada em adultério está infligindo uma serie de leis da casuística farisaica. Por ser mulher, era mal vista e considerada em eterno estado de impureza. Jesus, por sua vez, vê a mulher com outros olhos, se aproxima e lhe dá a chance de recuperação. Oferece a ela o perdão e a dignidade que o sistema do puro e impuro lhe haviam tirado.

Da mesma forma, diversas outras atitudes de Jesus escandalizavam os judeus fariseus: Jesus tocava nos leprosos (Mc 1,41; Mt 8,2; Lc 5,12), tocou no cadáver do filho da viúva de Naim e o ressuscitou, fazia refeições com pecadores e seus discípulos comiam e bebiam sem lavar as mãos, conversava e tocava em samaritanos (considerados pagãos), dentre outros.

Jesus foi, sem querer ser, certamente, o primeiro e maior humanista que já existiu, paradoxalmente não porque colocava o homem como centro e finalidade de tudo (humanismo moderno), mas porque resgatou definitivamente ao homem perdido e humilhado a condição de filho amado do Deus-Pai, o todo-poderoso criador do céu e da terra.

O que a ciência e a história deixam para a fé cristã?

Sobre as questões acima, pouco se pode contestar, uma vez que são artigos históricos e que, portanto, não necessitam de fé para serem cridos.

Por outro lado, inúmeras são as questões ligadas a Jesus que precisam ser interpretadas obrigatoriamente pela lente da fé, para que possam ser compreendidas (se é que são passíveis e possíveis de serem alcançadas pela insuficiente razão humana), vividas, sentidas e, por fim, cridas e disseminadas.

Isso é o que veremos no Fascículo 2 desta Edição 7 do Kênosis.

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