Paulo, o Menor de Todos

Paulo de Tarso, também chamado de Apóstolo Paulo, Saulo de Tarso e São Paulo, mesmo não sendo um dos 12 escolhidos inicialmente por Jesus, tornou-se um dos mais influentes e efetivos evangelizadores do cristianismo primitivo, cujas obras compõem parte significativa do Novo Testamento.

Judeu, mas cidadão romano, Paulo (“o menor de todos”) foi o Apóstolo dos Gentios, o responsável por democratizar a mensagem salvífica de Jesus a todos os povos (ideia inicialmente rechaçada pelos discípulos mais conservadores, como Pedro, no incidente de Antioquia – fonte: Gal 2,11-14 -, e Thiago, este com visão bastante legalista em diversos momentos).

Conhecido como Saulo antes de sua conversão, diz-se que se dedicava à perseguição dos primeiros discípulos de Jesus na região de Jerusalém (a tradição aponta que ele provavelmente tenha participado do apedrejamento de Santo Estevão, primeiro mártir cristão). De acordo com o relato na Bíblia, durante uma viagem entre Jerusalém e Damasco, numa missão para que, encontrando fiéis por lá, “os levasse presos a Jerusalém”, Paulo teve uma visão de Jesus envolto numa grande luz, ficou cego, mas recuperou a visão após três dias, quando começou a pregar o Cristianismo fervorosamente.

Peregrino e pregador incansável são de Paulo boa parte dos conceitos e doutrinas que fundamentaram a fé católica que professamos hoje, como a ideia de que a salvação é baseada na fé e não nas obras da Lei, o regozijo em enfrentar o sofrimento e as tribulações imitando o sofrimento agudo e injusto de Cristo em seu calvário ou mesmo o tema da Kênosis, título deste encarte. Foi Paulo também quem transformou a fé em fundamento sólido, racionalizável, seguro, lógico onde há compreensão possível e espiritual em toda sua aceitação por conversão. Por sua escolha de viver o Evangelho no mais puro limite da dedicação, o cidadão romano Paulo passa de perseguidor a perseguido: a tradição aponta que morreu por sua fé em Jesus, decapitado em Roma, provavelmente entre os anos 64-67 d.C.

É bastante interessante notar a forma como Paulo, um dos 4 principais bastiões de nossa Igreja, junto com Pedro, João e Maria, destaca, na Epístola aos Romanos, seu processo de conversão. Inicialmente ele dá seu currículo completo antes de aderir a Cristo, pela fé: irrepreensível pela Lei, perante os outros, o que era objetivo de todo fariseu.

Interessa realçar o peso que a “perfeição farisaica” tinha para aqueles judeus que aguardavam a vinda de seu Messias. Como para os fariseus o Messias só viria quando todos em Israel fossem irrepreensíveis, os pobres que não conheciam a Lei e os doentes entendidos como pecadores “atrasavam” a vinda do Messias. Em Romanos 5, 3, Paulo quebra com esse conceito, dizendo que “Deus mandou seu filho quando ainda éramos pecadores…”. Assim, para o antes fariseu Paulo, a irrepreensibilidade era um ganho (salvação dependia da prática das obras da Lei); mas para o cristão Paulo, a irrepreensibilidade torna-se uma perda, um engano fruto da arrogância, pois a salvação só é possível pela Fé em Cristo, uma vez que foi Deus quem nos amou primeiro, por graça e misericórdia. Com essa profunda compreensão, Paulo passa a agir em resposta ao amor gratuito e redentor, infundido nele pelo Filho de Deus. Sua vida na carne passa a ser uma resposta testemunhal a essa amor, de forma que o que Paulo faz de bem, de justiça e por amor, o faz agindo pela fé, em ação de resposta ao Deus que o amou primeiro.

Como teólogo da ressurreição, tema central da Páscoa, é na Epístola aos Corinthios, no capítulo 15, que o testemunho de Paulo sobre a real ressurreição corpórea de Jesus (testemunhada por diversas pessoas) e seu significado para nossa salvação, se fortalece:

“… porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze. Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também.

Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos. E por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo. Porque eu sou o menor dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois que persegui a igreja de Deus.

Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo.

Então, ou seja eu ou sejam eles, assim pregamos e assim haveis crido. Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como dizem alguns de entre vós que não há ressurreição de mortos? E, se não há ressurreição de mortos, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus, pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não ressuscitou, se na verdade, os mortos não ressuscitam. Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E também os que dormiram em Cristo estão perdidos. Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. Mas agora Cristo ressuscitou dos mortos, e foi feito as primícias dos que dormem.

Porque assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda. Depois virá o fim, quando tiver entregado o reino a Deus, ao Pai, e quando houver aniquilado todo o império, e toda a potestade e força. Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés. Ora o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte. Porque todas as coisas sujeitou debaixo de seus pés. Mas, quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, claro está que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas….”.

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