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O que é a Quaresma para nós?

A quaresma é o tempo litúrgico de conversão que a Igreja reserva para que possamos, com o auxílio do Espírito Santo, nos preparar para a grande festa e mistério da Páscoa. É um tempo de revisão, arrependimento, “re”conversão e, fundamentalmente, aproximação e imitação de Cristo.

Em seus 40 dias, que começam na Quarta-feira de Cinzas e terminam na missa vespertina da Quinta-Feira Santa, inclusive (ref. Semana Santa), em que se inaugura o Tríduo Pascal, cabe a nós empreendermos esforços que nos capacitem a recuperar o propósito mais essencial de nossa cristandade, marcada pelo batismo, bem como fortalecermos nossa filiação com o Pai.

Na Quaresma, Cristo nos convida a mudar de vida efetivamente, a experimentar seu caminho. É tempo de rejeitar o Pecado, de confirmar a esperança, de mudar de dentro da fora (metanoia), para sempre.

Por isso, por mais que seja um tempo reservado, não pode significar somente este tempo. A eficácia da Quaresma está intimamente ligada à perenização deste modelo de vida cristã em todos os dias do ano.

Assim, a Quaresma também se torna um tempo de perdão e reconciliação fraterna, porque o verdadeiro cristão não carrega e cultiva negatividades.

Na Quaresma, devemos aprender a conhecer e apreciar a Cruz de Jesus, assumindo nosso compromisso de tomarmos a nossa própria cruz com alegria para gozarmos da glória da ressurreição, já conquistada por Ele.

Qual a origem da Quaresma?

A expressão Quaresma vem do latim “quadragesima dies” e significa quadragésimo dia.

O tempo da Quaresma é o período do ano ano litúrgico que antecede a Páscoa cristã, celebrado pelas igrejas mais tradicionais, como a Católica, Ortodoxa, Anglicana e Luterana.

Cerca de duzentos anos após o nascimento de Cristo, os cristãos começaram a preparar a festa da Páscoa com três dias de oração, meditação e jejum. Por volta do ano 350 d. C., a Igreja aumentou o tempo de preparação para quarenta dias. Assim surgiu a Quaresma.

A separação do Carnaval e o período da Quaresma inspiram um vasto grupo de tradições folclóricas, algumas oriundas de ritos anteriores ao Cristianismo, referentes ao fim do inverno e o posterior renascimento primaveril da terra, no hemisfério norte.

Em nossa Igreja, bem como em outras denominações cristãs, o Ciclo Pascal compreende três tempos: preparação, celebração e prolongamento. A Quaresma insere-se no período de preparação.

Por isso, os serviços religiosos desse tempo ensejam a preparação da comunidade de fiéis para a celebração da festa pascal, simbolizada pela ressurreição de Cristo, o principal esteio da fé cristã.

Como instrumentos dessa preparação, intensificam-se práticas que devem ser correntes no ano todo, mas que assumem caráter preparatório neste período. Dentre estes, são mais profícuos o exame de consciência, a revisão da quotidiana prática da fé, a afirmação dos compromissos batismais, a leitura, escuta e meditação da Palavra, e o jejum, abstinência (de carne), mortificaçõescaridade e orações.

Quadragésima ou Quarenta dias

A expressão latina “quadragésima” representa o período de quarenta dias de preparação para a Páscoa e faz alusão ao simbolismo do número quarenta com que o Antigo e o Novo Testamento representam os momentos salientes da experiência da  das comunidades judaica e cristã.

Em seu simbolismo, este número não significa um tempo cronológico exato, ritmado pela sequência de dias, mas uma representação sociocultural de um período de duração significativa para uma comunidade de crentes.

Na Bíblia, o número quarenta aparece em diversos momentos significativos, como:

No Antigo Testamento

  • Na história de Noé (Gn 7,4-12; 8-6), durante o dilúvio, é o tempo transcorrido na arca, junto com a sua família e com os animais. Após o dilúvio, quarenta dias mais passarão antes de se tocar a terra firme.
  • No que se refere a Moisés, quarenta dias e quarenta noites é o tempo de sua permanência no monte Sinai para receber a Lei (Ex 24,18). Quarenta anos é o tempo de duração da viagem do povo judeu do Egito para a terra prometida (Dt 8,2-4).
  • No Livro dos Juízes, refere-se a quarenta anos de paz de que Israel goza sob o regime dos Juízes (Jz 3,11-30).
  • profeta Elias leva quarenta dias para chegar ao monte Horeb, onde se encontra com Deus (1Rs 19,8).
  • Os cidadãos de Nínive fazem penitência durante quarenta dias para obter o perdão de Deus (Gn 3,4).
  • Quarenta anos duraram os reinados de Saul (At 13,21), de Davi (2Sm 5,4-5) e de Salomão (1Rs 11, 41), os três primeiros reis de Israel.
  • No livro dos Salmos o simbolismo do número quarenta está presente no Salmo 95, no trecho em que se recita “Durante quarenta anos essa geração desgostou-me”.

No Novo Testamento 

  • Jesus foi levado por Maria e José ao Templo, quarenta dias após o seu nascimento, para ser apresentado ao Senhor (Lc 2, 22).
  • Jesus, antes de iniciar a sua vida pública, retira-se no deserto por quarenta dias e quarenta noites, sem comer nem beber, para ser tentado pelo demônio (Mt 4,2; Mc 1,13; Lc 4,1-2).
  • Durante quarenta dias Jesus ressuscitado instrui os seus discípulos, antes de subir ao Céu e enviar o Espírito Santo (At 1,3).

Tempo especial para a Igreja Católica

Papa Bento XVI, na Audiência Geral de Catequese, no dia 22 de Fevereiro de 2012, sobre o significado litúrgico dos “quarenta dias da Quaresma”, assim definiu:

“Trata-se de um número que exprime o tempo da expectativa, da purificação, do regresso ao Senhor e da consciência de que Deus é fiel às suas promessas.” 

No que se refere aos dias e tempos de penitência, o Código de Direito Canônico da Igreja Católica prescreve todas as sextas-feiras do ano e o tempo da Quaresma (Cân. 1250).

Na disciplina católica, todos os fiéis, cada qual a seu modo, têm obrigação de fazer penitência. Prescreve-se, neste contexto disciplinar, que nos dias de penitência os fiéis de modo especial se dediquem à oração, exercitem obras de piedade e de caridade, se abneguem a si mesmos, cumprindo mais fielmente as próprias obrigações e, sobretudo, observando o jejum e a abstinência, segundo as normas do Direito Canônico (Cân. 1249).

Os fiéis são exortados a guardarem a abstinência de carne ou de outro alimento segundo as determinações da conferência episcopal, todas as sextas-feiras do ano, a não ser que coincidam com algum dia enumerado entre as solenidades. Os fiéis devem seguir o preceito da abstinência e do jejum na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo (Cân. 1251).

A obrigação do cumprimento da lei da abstinência recai sobre os maiores de treze anos. Estão sujeitos à lei do jejum todos os maiores de idade até terem começado os sessenta anos. A norma canônica insiste que todas as pessoas, mesmo as dispensadas da lei da abstinência e do jejum, sejam formadas no sentido genuíno da penitência (Cân. 1252).

Após a reforma conciliar a adaptação das práticas de penitência nos diversos lugares do mundo, ficou sob a responsabilidade das conferências episcopais. Estas “podem determinar mais pormenorizadamente a observância do jejum e da abstinência, e bem assim substituir outras formas de penitência, sobretudo obras de caridade e exercícios de piedade, no todo ou em parte, pela abstinência ou jejum” (Cân. 1253).

Liturgia quaresmal

Quarta-feira de Cinzas

A liturgia da Quarta-feira de Cinzas (Feria quarta cinerum, em latim) abre o tempo da Quaresma. Não se diz o Glória ou o Creio, na missa. O nome vem das cinzas que nesse dia são bentas e impostas na cabeça dos fiéis, como símbolo da vida efêmera e passageira e convite à penitência.

O rito da bênção das cinzas realiza-se na quarta-feira que precede o primeiro domingo da Quaresma, antes da missa principal, para logo em seguida, e durante todo o dia, ser imposta aos fiéis que o pedirem. A cinza é proveniente dos ramos bentos da do Domingo de Ramos do ano anterior. A imposição se faz no alto da cabeça, em forma de cruz acompanhada de uma das seguintes das admoestações:

– Convertei-vos e crede no Evangelho! (Mc 1, 5)

– Lembra-te que és pó, e ao pó hás de voltar! (Gn 3, 19)

Não é necessário que o rito da bênção e imposição das cinzas seja unido à missa; pode ser celebrado sem missa.

Domingos e solenidades

O Tempo da Quaresma tem seis domingos, que são chamados de I, II, III, IV, V e Domingo de Ramos da Paixão (VI). Esses domingos têm sempre precedência, mesmo sobre as festas do Senhor e sobre qualquer solenidade.

As solenidades de São José (19 de março) e da Anunciação do Senhor (25 de março), assim como outras possíveis solenidades dos calendários particulares, são antecipadas para o sábado ou são adiadas para a segunda-feira, caso coincidam com esses domingos.

Nos domingos da Quaresma não se canta ou recita o hino do Glória, nem se canta ou recita o Aleluia; faz-se, porém, sempre a profissão de fé.

O quarto domingo da Quaresma é denominado Domingo Laetare, assim chamado pela primeira palavra do introito em latim: Laetare Jerusalem (Alegra-te, Jerusalém!). Os paramentos da missa e do ofício solene podem ser rosáceos.

O sexto domingo da Quaresma é denominado Domingo de Ramos (Dominica palmarum, em latim), domingo que precede a festa da Páscoa, assim chamado porque antes da missa principal se realiza a bênção dos ramos, seguida de procissão.

A cor litúrgica deste tempo é o roxo, que significa luto e penitência. Para o 4º domingo, chamado domingo da alegria, é permitido o uso da cor rosa. No Domingo de Ramos, a cor das vestes litúrgicas do celebrante é avermelha. Vale, entretanto, lembrar, que questões e costumes regionais podem alterar esses significados das cores.

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