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O Espírito Santo nos Evangelhos

O Espírito Santo nos Evangelhos

Estamos vivendo o período de Pentecostes em nossa Igreja. Pentecostes é sobre o Espírito Santo, sobre a relação de Deus com a Humanidade, através do Espírito Santo. O Espírito Santo é o Senhor da Trindade que “substitui” Jesus – agora ao lado do Pai – em sua tarefa de assistir e acompanhar a Humanidade na construção do Reino de Deus, em nosso caminho de salvação rumo à vida eterna.

Podemos afirmar que o Espírito Santo é a presença de Deus experimentada pelo ser-humano, como também é a presença de Cristo na Terra, legada pelo próprio Cristo para nos inspirar, confortar e guiar, antes de sua ascensão aos céus. Mas atentemos: o Espírito Santo Não é o Espírito do Deus-Filho (Cristo) ou do Deus-Pai (Javé), mas uma pessoa interdependente da Santíssima Trindade, tão Senhor quanto o Deus-Pai e o Deus-Filho.

Desde cedo, como cristãos, aprendemos a professar nossa fé, entoando o “Creio ou Credo”.  Por isso, professamos: “Creio no Espírito Santo”. Ao contrário do senso comum, o “Credo” não é uma oração; mas uma afirmação daquilo que nós, como Igreja Corpo de Cristo, adotamos como objetos de fé; ou seja, no que cremos, de fato.

Como veremos adiante, isso nem sempre foi assim. No início do cristianismo, o Espírito Santo não era uma verdade absolutamente reconhecida e o conceito da Trindade não estava cristalizado no coração de todos os cristãos.

Entretanto, como podemos ver nos diversos Evangelhos, o Espírito Santo é presença forte e permanente na vida de Jesus Cristo, como em seu batismo por João Batista ou quando, já ressuscitado, soprou o Espírito Santo sobre os discípulos.

Ao cair da tarde daquele primeiro dia da semana, estando os
discípulos reunidos a portas trancadas, por medo dos judeus, Jesus entrou,
pôs-se no meio deles e disse: “Paz seja com vocês!” Tendo dito isso,
mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se quando viram o
Senhor. Novamente Jesus disse: “Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou,
eu os envio”. E com isso, soprou sobre eles e disse: “Recebam o Espírito
Santo”.
  João 20,19-22

Outra passagem importantíssima está no final do Evangelho de Mateus (Mt 28,19), em que Jesus manda batizar em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, dando força à Trindade (item que também aparece na 1ª Carta de Pedro e em outras passagens).

Como doutrina de fé, o Espírito Santo somente se ilumina no Novo Testamento; não sendo objeto de fé dos judeus (por exemplo, quando se escreve espírito no Antigo Testamento, sempre se escreve em minúsculo). Assim, a consciência de sua ação na história da salvação desde o princípio dos tempos veio pela revelação de Jesus Cristo.

No Credo Niceno-Constantinopolitano, declarado no 1º Concílio de Constantinopla em 381, o Espírito Santo é chamado de “Senhor que dá a vida”, portanto, o vivificador, o sopro de vida (em hebraico, a palavra espírito é “ruah”, que quer dizer sopro, vento). Também nessa versão do credo entoamos que o Espírito Santo “procede do Pai e do Filho” e “como o Pai e o Filho é glorificado”, “Ele que falou pelos profetas”, e que continua falando com a Humanidade, pela Igreja Corpo de Cristo, até hoje.

O Espírito Santo e a Unidade Perfeita da Trindade

A doutrina da Santíssima Trindade nos ensina que “em Deus há três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo; e cada uma delas possui a essência divina que é numericamente a mesma”.

Apesar de não estar formalmente formulada nos Evangelhos como doutrina, a Santíssima Trindade nos é revelada em várias passagens, quando aprendemos que cada Pessoa da Trindade tem seu papel e finalidade específica, todas elas concorrendo para o mesmo objetivo, pois têm um só plano, uma só vontade. Dessa forma, aprendemos que Deus-Pai é o criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; que Jesus-Filho é o verbo executor e redentor e que o Espírito Santo é o consolador da Humanidade e o iluminador da revelação de Cristo sobre Deus ao longo de todos os séculos.

Temos essa certeza ao confirmarmos a fidelidade infinita do Filho ao Pai e do Espírito Santo ao Filho, manifestando assim a perfeição da unidade indissociável da Trindade.

Nossa fé tem origem na fé judaica, na crença no Deus único chamado Javé. Para os judeus, sua fé (Antigo Testamento) está fortemente ancorada na Lei, representada por Moisés, e nos Profetas, representados por Elias. Para eles, Jesus é, no melhor dos casos, um profeta menor. Para nós, Cristo cumpriu e encerrou a Lei, aperfeiçoando-a em 2 mandamentos perfeitos: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como Ele nos amou. Para nós, Cristo é verdadeiramente Deus, pessoa da Trindade, com o Pai e o Espírito Santo.

Esse Espírito que agia em, com e por Jesus é o mesmo que agira em Moisés e revelava o Pai aos judeus, pela boca dos profetas. Em Pentecostes, recebemos este Espírito do próprio Jesus, uma vez que somente Ele, além do Deus-Pai, tem a plenitude desse Espírito.

O Espírito Santo como Exegeta e Hermeneuta da revelação de Jesus Cristo

Adorarmos e servirmos a um Deus que é Pai e nos ama infinitamente, é a boa nova revolucionária revelada por Jesus sob o influxo do Espírito Santo. Isso é facílimo de comprovar, bastando lembrarmos a oração que ele mesmo nos ensinou: o “Pai-Nosso”, conforme Mt. 6, 9-13. Essa visão de Deus-Pai, que ama, perdoa e quer proximidade, praticamente não existia no Antigo Testamento.

É Cristo quem nos revela esse Deus-Amor (conforme João) que quer dialogar com o Homem, quer se fazer conhecer (premissa) e que espera a nossa resposta e aceitação, pela nossa fé. Toda essa dinâmica de relação e comunicação Homem-Deus passa pela Igreja Corpo de Cristo, mas é somente possibilitada pela atuação do Espírito Santo, que renova todas as coisas e sopra como e onde quer, usando quem quer para o fim que quiser, independente de quem seja, da fé que professe ou de seu histórico pessoal.

Por isso, se Cristo é o Verbo mobilizador, pela Palavra, o Espírito Santo é seu mais fiel e incontestável hermeneuta (aquele que interpreta corretamente os sentidos das palavras em leis, decretos e/ou textos formais) e exegeta (aquele que lê, interpreta, traduz, contextualiza e atualiza textos e mensagens bíblicas, jurídicas ou literárias, tanto explícitas como implícitas) para o Homem, porque nossa capacidade de compreensão de toda revelação feita por Cristo, acerca de Deus-Pai, é limitada à nossa situação conjuntural, cultural, científica e de desenvolvimento como sociedade.

Como Paráclito, o Espírito Santo age sobre nosso coração e nossa mente, nos conectando, pela Palavra, a Cristo e sua mensagem salvífica.

Contudo, é fundamental compreendermos que o Espírito Santo NÃO traz novas revelações acerca de Deus e seu Reino. Cristo é a revelação integral de Deus. O que o Espírito Santo age em nós, e não na revelação. O que ele faz é atualizar essa revelação, iluminar nossa compreensão, ampliar nossas possibilidades de absorção, exemplificar e tangibilizar a Palavra para o nosso aqui e agora, sem, entretanto, alterá-la em uma vírgula sequer, nem para mais, nem para menos, porque, à luz de Paulo, o Espírito Santo não é e não pode ser anátema, pois, sendo Deus, não pode propor ou conviver com heresias. Prova disso é o que ele afirma na 1ª Carta aos Corinthios (12-3): “E ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo”.

Por isso, o papel do Espírito Santo é revitalizar e reafirmar a revelação de Jesus no campo da compreensão atualizada e evoluída de nós, como indivíduos e como sociedade. Afinal, se estamos em Cristo, todos os caminhos nos levam a Deus, mas se não estamos em Cristo, nenhum caminho verdadeiro nos leva diretamente a Deus, de forma consciente, cabendo ao Espírito Santo direcionar o coração e a consciência daqueles que ainda não conhecem a Cristo.

Espírito Santo, Paráclito, nosso Advogado nesse mundo

Se Cristo é o nosso paráclito com Deus, em nossa relação direta com Deus-Pai, pois Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida, porque ninguém vai ao Pai senão por Ele ou porque Ele nos foi preparar o Reino futuro quando voltou ao seio do Pai, o Espírito Santo é nosso Paráclito para com os Homens (Mt 10,19 – “Quando fordes presos, não vos preocupeis nem pela maneira com que haveis de falar, nem pelo que haveis de dizer: naquele momento ser-vos-á inspirado o que haveis de dizer”, ou ainda, como em Jo 16,33 – “ No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; Eu venci o mundo”).

Claramente, ambos concorrem para o Reino e para a salvação do Homem, em sua união eterna com Deus-Pai.

A fé vem pelo ouvir e se consolida no coração, antes de se materializar na razão. Pregar a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo é tão mais eficaz quão mais contextualizada for nossa capacidade de fazer o outro compreender sua divindade e sua proposta de salvação. Por isso, precisamos do Paráclito de Pentecostes, falando na língua de cada um, para que Cristo se faça tudo para todos, cada qual com sua forma de ouvir, sentir, enxergar. Foi exatamente assim, com esse suporte do Paráclito e seus dons distribuídos, que os discípulos e os diferentes Evangelhos converteram as comunidades às quais eram dirigidos, que Paulo foi tão contundente em suas cartas adaptadas aos costumes de cada comunidade e região que evangelizava.

Pregar Jesus é inseri-lo, portanto, na realidade humana, e não suplantá-la, porque conforme o Concílio Vaticano II, Cristo, como semente do Verbo, atua, inspira e converte ao Deus-Pai em todas as religiões que a Ele buscam e servem.

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