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O Mundo Moderno e as Várias Formas de Idolatria Sufocam as Vocações

A sociedade moderna é uma sociedade de ídolos. Ídolos rasos e pontualmente interessantes e altamente atraentes, desejáveis até, como a fama, o poder, o dinheiro, o sexo, as drogas. Esses ídolos – ou ícones – substituem Jesus e assumem seu lugar intransferível de adoração e culto.

Além desses ídolos, outras potestades também assumem a posição exclusiva que devemos dar ao Deus-Trino. Dentre elas, podemos destacar os falsos deuses, os espíritos, os duendes, o sol, os ETs, os santos e anjos (quando os colocados acima de Jesus ou como mediadores diretos junto ao Pai), os líderes e celebridades humanas e mesmo Maria (quando endeusada e tratada hereticamente como a 4ª. pessoa da Trindade). Infelizmente, a mais perversa das potestades é mesmo um tal de jesus, potestade essa criada e propagada por diversas seitas autoproclamadas cristãs, que carregam consigo o nome de Jesus, mas em nada se parece com sua forma de ser, pensar e agir.

Orar de forma santa é pedir o que é bom aos olhos de Deus e não o que é bom segundo nossos interesses imediatistas. Fé é servir a Deus e não servir-se de Deus. É amar a Deus em si mesmo e não pelos benefícios que dele podemos receber. Mas não é isso que vemos hoje no chamado mundo cristão.

Entretanto, o maior de todos os ídolos dessa sociedade que globaliza a indiferença, robotiza as pessoas, digitaliza as relações familiares pessoais e demoniza o toque e o acolhimento humano, tem como métrica de sucesso a capacidade individual de ser mais e melhor que o outro, de diminuir e oprimir o outro (ato que Jesus condenou como assassinato – “haka” – termo aramaico por Ele utilizado para definir esse tipo de coisificação e diminuição do outro à categoria de total insignificância, de completa irrelevância, de sinônimo de nada). Essa dinâmica quase ariana, que presume excluir os mais fracos, os mais pobres, os mais doentes, os mais velhos, os mais novos, as minorias, deve ser firmemente combatida pelos cristãos, com amor, com serviço, com acolhimento, com humildade, com as vocações, conforme vem reafirmando o Papa Francisco desde que foi eleito (recentemente, o Papa Francisco disse em uma entrevista a um canal de TV que a Igreja é uma mãe que deve abraçar, tocar, alimentar e aquecer seus filhos e não ser uma “mãe por correspondência”, impessoal).

Nesta sociedade dos “super-homens”, dos 15 Mb de fama na Internet e das pseudocelebridades nas redes sociais, não há lugar para Jesus, não há lugar para o amor ao próximo, mas somente ao amor a si próprio, ao autobenefício, ao “salve-se quem puder” e ao “cada um com seus problemas”.

Por isso, se criam diariamente microimperadores, microNeros em todas as classes sociais, em todas as atividades humanas, em todas as etnias, com a clara missão de afirmar que o trono do Pai lhes pertence. Ah se não é esse o “pecado original” de Lúcifer! E assim vamos nos luciferizando sem perceber, nos empanturrando de nós mesmos, para nosso próprio deleite, nesta vida, a tal vida com abundância, conforme prega o “novo cristianismo positivista”.

Aqui temos a lógica do tudo posso por mim e em mim, pois é em mim que me fortaleço. É a mesma lógica do Senhor ao meu dispor, do abominável ato de determinar a Deus, como se isso fosse possível.

Jesus “odeia” a superlativização do Homem pelo Homem, mas ama a pequenez e a humildade. Enquanto muitas vezes, ainda sem entender completamente o Messias despojado, os discípulos disputavam entre si, como em Mateus 18,1-4: “quem de nós é o maior no reino dos céus?”, Jesus, paciente como é com cada um de nós, respondia: “Se alguém quiser ser o maior, seja o menor” (Mc 9, 30-37). Para Jesus, o maior é o que não tem trono, pois governa da cruz, é o que não tem pompas, o que se esvazia, o que não tem aonde reclinar a cabeça, é o último que será feito – e não que se faz – o primeiro.

Também no campo religioso, a empáfia e o descaso das igrejas, inclusive a nossa em muitos momentos, seja pela preocupação fundamental com sua organização e gestão burocrática quotidiana (o Papa Francisco tem sido explícito ao dizer que a Igreja não é uma ONG), seja pelo engano que outras tantas igrejas “neo qualquer coisa” proclamam em nome de Jesus, somente aproximam o Homem de si próprio, afastando-o de Deus.

Jesus também não gosta da pose farisaica e legalista de muitos cristãos, católicos e de outras denominações, consagrados e leigos, que se colocam como perfeitos perante Deus, como se o Evangelho fosse uma Lei a ser cumprida. Isso é a rejudaização da fé, estigma cancelado por Jesus na cruz do calvário. A chamada vaidade do monastério, puritana, da ética, dos melhores, dos poucos escolhidos, do preciosismo, da dureza no coração é, na verdade, jactância, autoendeusamento, autopotestadização. Aquele que não teme seu tamanho (engrandecimento pelas honrarias humanas) se torna falso profeta, se torna anticristão, porque se assume maior do que é, maior do que Deus e do que o próximo (e todos somos iguais perante Deus).

Aquele que se acostuma com as honrarias e não sente desconforto com isso se torna blasé (arrogante) e acha normal receber essa carga brutal de energia. Ato sequente, esse tipo de comportamento abre espaço para as autogratificações, as autocomplacências e passamos a aceitar que temos direito a mimos, a pequenas faltas e benefícios, ao ágio da “boa conduta”, aos tão desejados “pecadinhos permitidos”. Na verdade, nos tornamos ícones e reféns desta dessa celebrização, que vicia e mata a alma. No fim, parece que nos convencemos que é uma “honra para Deus ter-nos como servos”, pois, afinal, somos “essenciais para Deus na Terra, porque Deus precisa de nós nessa Terra”.

Essa idolatria sutil, mas retumbante, não está na imagem física, mas na forma como hedonicamente nos colocamos perante Deus e perante nossos irmãos e, portanto, como tratamos as realidades, nossas atitudes que nos aproximam ou nos afastam de Deus. A regra do “vinde a nós tudo e ao vosso reino nada” é a regra do mundo 24 x 7, instantâneo, multimídia, ultraconectado e desumano.

Por isso, para esses cristãos sem Jesus, o sol, por exemplo, que não é imagem feita por mão de Homem, pode ser idolatrado. De fato, o que idolatrar ou iconizar é escolha de cada um. Acabar com os bonecos de gesso e pau é fácil; difícil é acabar com a idolatria em nossos corações.

Em decorrência, o crente que mais sofre, mesmo sem saber que está sofrendo e se condenando, é aquele que é discípulo de igrejas e não da vida eterna. Os crentes sem fé, apáticos, sem ressurreição, carregadores da culpa da Lei ou os crentes compradores de bens terrenos e das “outras promessas malaquianas do Evangelho” são os dois tipos que prevalecem hoje nesse mundo de indiferenças. Acredite irmão, irmã… nenhum deles, nenhum de nós que é assim é verdadeiramente cristão, porque não entendeu nada sobre o cristianismo.

Infelizmente não podemos fugir de nossa natureza. Ao longo de toda a Bíblia, os profetas, Jesus, os apóstolos nos mandam enfrentar o demônio de frente, sem medo, com fé; mas igualmente nos mandam “fugir” de nossa carne. Os pecados capitais como a gula, a preguiça, o orgulho, a inveja, a avareza, a cobiça, a luxúria, a vaidade (conforme retratado no filme “O Advogado do Diabo”) são, em grande monta, os sentimentos que se mais nutrem no seio social – e muitos deles são aplaudidos e remunerados pelas regras deste mundo.

Fato é que a inclinação natural do homem é pecar, porque a carne é corrompida. E o que é da carne e não edifica, pois é animal. Reflita! Somos nós que gritamos Barrabás, Barrabás, conscientemente, todos os dias, em nossas famílias, no trabalho, entre estranhos.

Toda boa obra que fazemos, fruto de nossas vocações, é dom de Deus. Bem nenhum que fazemos ou temos vem de nós, porque são graça de Deus. De nossos pensamentos e ideias a nossas atitudes e ações, nosso instinto nos leva para o egoísmo (o famigerado e irrefutável gene egoísta de Richard Dawkins), à possessividade e ao ciúme, que são reações normais dos animais que somos.

De sorte que nem todo bem é bom. Nem todo bem que fazemos é bom para nós ou para nossos irmãos, ou mesmo para Deus. Quando agregamos coisas boas, que geram o bem, mas que não são do chamado de Deus para nós, e ainda acarretam admiração e ovação secular em nossa direção, não estamos fazendo o bem maior, mas cultivando o efeito salomônico da grandeza e da vaidade. Muitas vezes esse bem pode nos tornar hipócritas, insensíveis, falsos, iníquos, ímpios.

Esse animal que representa cada um de nós em essência só é vencido pelo amor de Deus, quando O deixamos entrar em nossos corações, em nossas mentes, aceitando de graça, a sua Graça. O bem que está em nós procede de Deus, apesar da vontade estar em nós, mas não o poder para realizá-lo. Já o mal que está em nós procede de nós mesmos e pode ser cultivado pelas forças do mal. Por decorrência, essa é nossa escolha essencial: viver a plenitude, construindo o Reino de Deus, com e para os irmãos, a partir de nossos dons e vocações, realizando o projeto de Cristo na Terra; ou simplesmente construir o Reino do Eu S.A., para nós mesmos, a partir de nossos próprios interesses. E ambas as escolhas têm seus pontos positivos, só que sob óticas salvíficas diferentes. Enquanto a primeira opção supostamente é pior nessa vida, mas garante a vida eterna e abundante, a segunda opção se tornou o frenesi da raça humana. Por isso Kênosis é difícil, é até ridicularizado por quem não entende sua magnanimidade (“cristãos, desde sempre, os otários”), simplesmente porque não é da natureza humana, manchada pelo Pecado, viver para Deus. Por isso há mais egoísmo que solidariedade, mais frieza do que acolhimento, mais complacência do que mobilização. Por isso também Deus está sumindo do dia a dia dos países, das comunidades, das escolas, das famílias.

É o despertar e a realização plena e frutífera de nossas vocações que nos tornam humanos, plenos, de Deus e para o próximo, e que, quando não materializadas em vida, simplesmente morrem conosco, porque não despertam do sono profundo que hibernam em nossos corações, embriagadas pelo ego inflado que cultivamos. Afinal, “não temos tempo!”, “Gostaríamos de ajudar, mas não vai dar!”, “Contribuir com dinheiro resolve e é suficiente!”, “Tenho feito minha parte: vou à missa aos domingos, rezo para Deus, leio a Bíblia” (como se esses atos, por si só, salvassem)… Cada um, na verdade, que se vire!

E diariamente esquecemos que o Homem, nós, somos salvos exclusivamente pela graça santificante da cruz e reassumimos, pela Lei renovada, a obrigação de nos (res)salvarmos. Que absurdo! Devemos zelar, vigiar para não perdermos a salvação que Cristo nos conquistou, mas ao renegar o amor de Deus, caímos no pecado, porque aderir a Deus é renegar ao pecado.

Nossa atitude mental positiva é fruto de nossa espiritualidade sadia, fundada em fé, esperança e caridade. A generosidade e a partilha são práticas cristãs que só atraem coisas boas e o bem. São forças espirituais poderosas. Por isso, dar, compartilhar e contribuir são mais importantes que receber.

Quem realmente conhece o Evangelho não consegue abandoná-lo. Afinal a quem iremos senão a Jesus? Quem tem as palavras da vida eterna?

Nosso caminho está em sermos dóceis e deixar-nos conduzir pela mão suave de Deus, sem saber a direção, mas no sentido ideal para o Plano de Deus em nossas vidas. Esse é o sinal de que estamos no caminho certo. Pense nisso!

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