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Quem era o Homem Pedro?

Antes de se tornar um dos doze discípulos de Cristo, Simão, depois chamado de Pedro, era pescador. Acredita-se que nasceu em Betsaida e falava aramaico. Era filho de um homem chamado João (ou Jonas) e tinha o também apóstolo André como irmão. Simão e André eram pescadores que tinham sua própria frota de barcos, em sociedade com os apóstolos TiagoJoão e o pai destes, Zebedeu .

Pedro era casado e tinha pelo menos um filho. Algumas fontes apontam que sua esposa era de família relativamente rica e que moravam numa casa própria, cuja descrição é muito semelhante a uma vila romana, na cidade romanizada de Cafarnaum.

Quando e como Pedro conheceu Jesus?

Segundo o relato em Lucas 5,1-11, no episódio conhecido como “pesca milagrosa“, Pedro conheceu Jesus quando este lhe pediu que utilizasse uma das suas barcas, de forma a poder pregar a uma multidão de gente que o queria ouvir. Pedro, juntamente com seus sócios, concedeu-lhe o lugar na barca, que imediatamente foi afastada um pouco da margem.

No final da pregação, Jesus disse a Simão que fosse pescar de novo com as redes em águas mais profundas. Pedro, especialistas naquelas águas, disse-lhe que tentara em vão pescar durante toda a noite e nada conseguira, mas, em atenção ao seu pedido, assim procederia.

O resultado inesperado para Simão foi uma pescaria de tal envergadura que as redes iam se rompendo, sendo necessária a ajuda da barca de seus dois sócios, que também quase afundou ao puxar tanto peixes. Numa atitude de humildade e espanto Pedro prostrou-se diante de Jesus e disse para que se afastasse dele, já que era um pecador. Jesus convidou-o, então, a segui-lo, vaticinando que o tornaria “pescador de homens”.

A liderança apostólica: a vocação de Pedro

Nos evangelhos sinóticos, o nome de Pedro sempre encabeça a lista dos discípulos de Jesus, fazendo transparecer assim seu lugar de primazia sobre o Colégio Apostólico. Não se descarta que Pedro, assim como seu irmão André, antes de seguir a Jesus, tenham sido discípulos de João Batista, como o fora o apóstolo Filipe, por exemplo.

Segundo a tradição defendida pela Igreja Católica Romana e também pela Igreja Ortodoxa, o apóstolo Pedro, depois de ter exercido o episcopado em Antioquia, se tornou o primeiro Bispo de Roma.

Segundo esta tradição, depois de solto da prisão em Jerusalém, o apóstolo viajou até Roma e ali permaneceu até ser expulso com judeus e cristãos pelo imperador Cláudio, época em que voltou a Jerusalém para participar da reunião de apóstolos sobre os rituais judeus no chamado Concílio de Jerusalém. A Bíblia atesta que após esta reunião, Pedro ficou em Antioquia (como Paulo afirma em sua carta aos gálatas).

Como Pedro morreu?

A tradição da Igreja Católica Romana afirma que depois de passar por várias cidades, Pedro foi martirizado em Roma entre os anos de 64 e 67 d.C., sendo crucificado, por opção, de ponta cabeça. Por quê? Basicamente por 2 razões:

  1. Por não se achar digno de morrer como seu Senhor, que havia sido crucificado “de pé”.
  2. Por acreditar que todo cristão, que chegava ao mundo no nascimento de cabeça para baixo (parto natural), deveria também viver e morrer de cabeça para baixo, pois só assim conseguiria enxergaria a vida e a proposta de Jesus pelo “lado correto”: quando estamos de ponta-cabeça, a esquerda se torna direita e vice-versa. Isso porque Pedro entendia que para seguir Jesus e compreender seu ministério espiritual, o cristão deveria estar totalmente desconectado das coisas do mundo e voltado somente às coisas do alto, para poder abarcar todo mistério do que realmente significa a conversão total, de dentro para fora, do indivíduo à proposta cristã.

Pedro em Roma

Desde a Reforma Protestante, teólogos e historiadores vem procurando provar que Pedro não teria ido a Roma, em uma clara tentativa de desconfigurar sua primazia e liderança, o que certamente era interessante para os reformadores propagarem a fim de descredibilizar o papa de Roma como sucessor legítimo de Pedro.

Essa tese foi defendida por Ferdinand Christian Baur, daEscola de Tübingen e outros como Heinrich Dressel, em 1872, que declarou que Pedro teria sido enterrado em Alexandria, no Egito ou em Antioquia.

Hoje, porém, a enorme maioria dos historiadores sérios, inclusive não católicos, concorda que, apesar de não ter fundado a Igreja em Roma (por exemplo, a Carta de Paulo aos Tessalonicenses é anterior à ida de Pedro a Roma), Pedro realmente viveu e morreu em Roma depois da Assunção de Jesus, tendo assumido, primeiramente em colegiado e, depois, como papa, a função de líder da Igreja na capital do império. Por exemplo, o historiador luterano Adolf Harnack afirmou que muitas teses anteriores foram tendenciosas e prejudicaram um estudo mais fidedigno sobre a real vida e o papel de Pedro em Roma, confirmando assim a tradição católica.

De qualquer forma, sua vida continua sendo objeto de investigação e seu túmulo, descoberto em 1950 após anos de meticulosa investigação, está localizado na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

A liderança de Pedro por outras fontes

Além dos Evangelhos e Atos dos Apóstolos, livros que compõem a bíblia católica e todas as bíblias cristãs, outros livros como a Didaqué (escrito no século I, que apresenta a Doutrina dos Doze Apóstolos sobre o catecismo primitivo cristão), e escritos de autores como Clemente, Inácio de Antioquia, Papias, Orígenes e Irineu, dentre outros, comprovam que Pedro viveu em Roma e liderou a Igreja nascente desde o coração de seu maior perseguidor: o Império Romano.

Por muito tempo, pesquisadores acreditavam que, assim como Judas Iscariotes, Pedro teria sido um zelota, grupo surgido dos fariseus formado de pequenos camponeses e membros das camadas mais pobres da sociedade. Este fato supostamente estaria comprovado em Marcos 3,18, assim como em Atos 1,13. Atualmente, já há forte consenso de que Pedro não era um zelota, o que faz com que o tal “Simão, o Zelote” citado nessas passagens de Marcos não seja o apóstolo Pedro.

O primado de Pedro e o nascimento da Igreja Católica

A liderança de Pedro começa a cristalizar firmemente quando ganha peso a discussão sobre a identidade de Jesus. Quando inquirido pelo próprio Jesus, Simão foi o primeiro dos discípulos a responder que Ele, Jesus, era o filho de Deus, o Messias! Esse acontecimento, conhecido como “Confissão de Pedro”, muda cabalmente a posição de Simão no grupo de Jesus, levando Jesus a chamá-lo de Pedro.

Além da passagem de Mateus já descrita nos textos acima, também em João 21,15-17 e em Lucas 22,31 podemos respaldar o primado de Pedro, que dever ser exercido particularmente na ordem da Fé, dado que Cristo o torna chefe dos demais: “Simão, filho de João, tu Me amas mais do que estes?” Ele lhe respondeu: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”. Jesus lhe disse: “Apascenta Meus cordeiros”. Segunda vez disse-lhe: “Simão filho de João, tu Me amas?”- “Sim, Senhor”, disse ele, “tu sabes que te amo”. Disse-lhe Jesus: “Apascenta Minhas ovelhas”. Pela terceira vez lhe disse: “Simão filho de João, tu Me amas?” Entristeceu-se Pedro porque, pela terceira vez, lhe perguntara “Tu Me amas?” e lhe disse: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo”. Jesus lhe disse: “Apascenta Minhas ovelhas.” (João 21, 15-17).

Neste trecho do Evangelho de João, Jesus propõe a Simão mudar de nome: Pedro (latim) ou Cefas (grego), alterando assim radicalmente sua identidade. Isso porque em Israel, naquela época, o nome significava a identidade da pessoa. Jesus faz isso para que Simão, agora Pedro, possa encontrar sua própria razão de ser, sua busca pessoal, sua verdadeira vocação. Pedro, que compreendia muito bem as escalas de poder, acaba encontrando no amor – e não no poder – sua verdadeira razão de ser (conforme era a visão de João, o discípulo amado); isso fica claro no Capítulo 21, conhecido como a Redenção de Pedro junto a Jesus.

Neste episódio, no final do Evangelho de João, Pedro está pescando, nu, e o discípulo amado avista o Mestre ressuscitado na terra. Pedro, de forma estranha, se veste (referência ao avental de pastor de Jesus) e se joga no mar com o coração aberto, a fim de encontrar Jesus na praia (mar = campo da missão, missão de servir, de pescar almas). É aí que Jesus lhe pergunta 3 vezes, contrapondo as 3 negações por ele cometidas na noite da prisão de Jesus: “Tu Me amas?”, recontextualizando dessa forma sua relação com o Mestre, agora não mais somente pela hierarquia, mas pelo Amor.

Pedro, então, assume a missão, o pastoreio de Jesus. Adquire uma força descomunal, cheio do Espírito Santo, e arrasta a rede cheia de peixes, sozinho. Ao contrário de quando conheceu o Senhor na praia, esta rede não se rompe – de forma que ele não perde nenhum peixe, nenhum “homem” pescado, representando então o verdadeiro nascimento da Igreja, sob a liderança e a força de Pedro, liderança essa que é sua verdadeira vocação.

Além de Mateus e João, também em Lucas 22, 31-32 podemos constatar a vocação de Pedro: ”Simão, Simão, eis que Satanás pediu insistentemente para vos peneirar como trigo; Eu, porém, orei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça. Quando, porém, te converteres, confirma teus irmãos”.

A contribuição de Pedro nos Evangelhos

Teoricamente Pedro era analfabeto. Mesmo que não fosse, falava aramaico e não grego, língua em que a grande maioria dos textos bíblicos foi originalmente escrita.

Assim, os textos bíblicos atribuídos a Pedro, na verdade, foram provavelmente inspirados por Pedro, como referência. O mesmo vale para o Evangelho de São Marcos, o primeiro, mais histórico e mais curto dos Evangelhos, escrito por volta do ano 50 d.C., por Marcos, discípulo mais evidente de Pedro.

São atribuídos a Pedro, no Novo Testamento, os seguintes textos: a “Primeira” e a “Segunda Epístola de São Pedro“. Outros textos apócrifos também foram atribuídos a ele, sem gozar da mesma credibilidade ou visão teológica daqueles que entraram formalmente no cânon católico. Dentre eles, estão o Evangelho de Pedro, o Apocalipse de Pedro, o Apocalipse Gnóstico de Pedro e diferentes livros sobre os Atos de Pedro, todos geralmente aceitos por historiadores como não sendo de sua autoria ou mesmo alinhados à sua visão teológica (configurando-se, portanto, claramente como fraudes histórico-teológicas).

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