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Dons X Frutos do Espírito Santo: um fim na confusão

Jesus, quando neste mundo, não tinha igreja. Quando se referia à Igreja, se referia às pessoas unidas na mesma fé e na mesma esperança: o Reino de Deus. Mesmo dentro das comunidades que o seguiam, mas principalmente naquelas que o ignoravam ou, simplesmente, não aceitavam sua mensagem, Jesus pregava aos seus que não julgassem o próximo, para não correrem o risco de misturar o joio com o trigo (já que as aparências, palavras e gestos enganam). Jesus nos ensinou que é pelo fruto produzido que as pessoas e seus corações serão conhecidos.

Dons X Frutos do Espírito Santo: um fim na confusão

Dons são carismas concedidos pelo Espírito Santo a qualquer ser-humano, cristão ou não, conforme a orientação, missão e talento de cada um. Começam no espírito, mas se aperfeiçoam na carne, no dia a dia. Para serem santos, precisam gerar frutos do Espírito, pois cada cristão é sal da terra e luz do mundo.

Na Bíblia existem diferentes relações dadas por Paulo sobre os dons do Espírito Santo, ora 7, ora 9. São alguns dos dons do Espírito Santo: Amor, Ciência, Cura, Exorcismo, Profecia, Discernimento/Entendimento/Compreensão, Interpretação de Línguas/Tradução de Línguas, Oração/Intercessão, Palavra, Penitência e Fé, que é dom e graça.

Somando Paulo, Pedro e outros, são em torno de 36 dons citados na Bíblia, mas essa lista não é exaustiva. Esses dons não dão o contorno total de Deus, que é infinito em poder, amor e misericórdia.

O Espírito Santo, por sua vez, é criativo ao promover os dons. Basta ver a Natureza. E o corpo glorioso de Cristo – a Igreja – não pode ser menos que a Natureza. Então que os dons se manifestem livremente, como o Espírito Santo, em favor do Evangelho, cada qual na melhor versão de si mesmo, que é ser parecido com Jesus e não com outra pessoa. A unidade é a diversidade de dons, de personalidades, todas imbuídas no mesmo Espírito.

Dons são dádivas de Deus para Salvação do Homem e não para propaganda de Deus ou do Homem; portanto, não se prestam à auto-jactância. Devem, contudo, edificar a Jesus e cumprir seu papel com os que seus benefícios recebem, segundo o Espírito Santo.

Não são, entretanto, evidência de proximidade com Cristo ou mesmo de santificação e evolução consciente na graça de Deus. Não trazem caráter especial a quem os têm e também não são sinal de saúde espiritual.

Os dons não devem se manifestar de forma apoteótica. Quando entendidos dessa forma, esquizofrenizam, alienam e geram mundos paralelos para as pessoas, pois se transformam eles em elementos maiores que o Espírito Santo que os distribui.

A experiência real com Cristo é espiritual, a partir do conhecimento real de Deus (certeza, abertura, sentimento e sabedoria) e não emocional ou psíquica. Quando a conversão é emocional, o crente despreza o fruto, não dá frutos, porque este é sublime e deve ser tangibilizado.

Os frutos, por sua vez, são o sinal, a manifestação real do Espírito Santo pela pessoa em suas atitudes no dia a dia, seu auto-controle, o abandono da doença da carne, da mente e do coração. Do contrário, os dons acabam sendo usados para domínio dos outros, de forma vazia ou mesmo maligna. Ou, como prova o ditado popular: carisma sem quebrantamento e sem caráter é receita eficaz para a produção de diabinhos. Aliás, não é por outra razão que, em geral, as grandes obras do Espírito-Santo – a unção real – acontecem com os pequeninos, sem holofotes e plateias.

Por isso, todo cristão deve ser julgado por seus frutos e não por seus dons. Cada qual deve prestar contas de entregar resultados práticos, transformacionais e definitivos na vida dos irmãos que tocam.

E quais são os frutos do Espírito Santo? Em Gálatas 5,22, lemos “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio.” Agora, vejamos bem: a palavra fruto aparece no singular e não no plural, o que nos leva a entender que são nove virtudes que fazem parte de um todo, de maneira que se faltar alguma dessas virtudes em nós não estaremos completos.  E, claramente, o amor é a maior delas, pois é o reflexo do caráter de Deus, sua maior definição e é a virtude que dá sentido e vida a todas as demais.

Cumpre, contudo, esclarecer que o amor é uma decisão da vontade e não um sentimento involuntário, porque é um mandamento (“amai a Deus sobre todas as coisas”, “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”, ”amai vossos inimigos”). É um sentimento independente e soberano que não exige reciprocidade (passagem Paulo “o amor é…). É a principal marca do cristão e é o elo mais forte de relação de Deus com o Homem, que nos amou primeiro e incondicionalmente dando seu único filho para nossa salvação e para a redenção de nossos pecados.

Esse é um ato de Kênosis de Deus como prova cabal de seu amor incalculável pela Humanidade que criou. Viver no amor e no perdão é o caminho certo de nossa redenção. Por isso, devemos amar até quem não gostamos, e por isso também nos confirmamos espiritualmente doentes se gostarmos de alguém ou algo que eu não possamos amar á frente do trono de Deus e da cruz de Jesus Cristo.

O Primeiro Amor (ref. Apocalipse) nunca deve ser perdido. Ele é o prazer no servir e a prioridade no servir e não um conjunto de atos mecânicos, ou por vaidade, por ego, por posição, por obrigação, por auto-estima. A Igreja avivada e renovada pelo Espírito Santo nunca perde o Primeiro Amor.

Aqueles que julgam e “marketeiam” dons e carismas que não lhes foram dados, são estelionatários do Espírito Santo. A cada qual, segundo a vontade de Deus, foi dado um ou mais de um dom para que o corpo todo tenha sentido, pois somos todos membros do mesmo corpo – o corpo de Cristo – e assim damos sentido uns aos outros e ao todo. Por isso todos os dons são importantes e complementares. Por isso todos os dons são iguais, porque todos somos iguais, mas esses dons nos são dados por um só e mesmo Espírito. Por isso, se um membro sofre, todos sofrem com ele. Se um se beneficia, todos são beneficiados.

Quem se rebela contra ser quem é, está em rebelião contra a vontade soberana de Deus. Murmurar é pecado por isso, porque diz que Deus não é Deus suficiente para nós. Não podemos, portanto, perder de foco a integridade do propósito do Espírito Santo em nossas vidas. Temos que nos voluntariar aos dons que nos são dados, com desapego e serviço. Esse processo do Espírito Santo em cada um de nós tem um papel curador, terapêutico para o nosso espírito… de conexão com o plano de Deus para cada qual.

O Mover do Espírito em cada um de nós

O maior milagre de Deus é o moral, aquele que converte a humanidade. Por isso, a Igreja é o sinal eficaz de Cristo na Terra.

A presença do Reino de Deus em nossas vidas se verifica pela nossa fé e pelas nossas atitudes e nossas obras, mas por graça e não por mérito. Então, para que se identifique se alguém está cheio do Espírito Santo, basta identificar os frutos que produz, os frutos do Espírito em cada um. Quando agimos em favor do Reino de Deus, a conspiração positiva em nosso favor cresce, sem que precisemos fazer nada, porque Este transborda de dentro de nós positivamente aos outros. Afinal, aos seus amados, Deus dá enquanto eles dormem e isso é o poder do pequeno, a força do amor.

É pelo Espírito Santo que nos apropriamos da única bem-aventurança presente no Evangelho de João, a partir da profissão de fé de Tomé, cf Jo, 20-29 “Meu Senhor e meu Deus! Jesus lhe disse: Acreditaste, porque me viste. Felizes os que creram sem ter visto”.

O Batismo no Espírito Santo e o Testemunho do dia a dia

A Palavra de Deus e o Espírito Santo não se separam, pois a Palavra e o Espírito dão testemunho de Jesus. Quem tem só a palavra, tem carisma, mas não tem o poder real do Espírito. Quem busca poder, sem a Palavra, espiritismo sem a Palavra, acaba caindo no misticismo, no poder psíquico (Mt 7, 21 – “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus”). Os frutos do Espírito são a verdadeira “propaganda” do Reino de Deus, assim como o figo é a melhor propaganda da figueira e a laranja da laranjeira. Quem é do Espírito Santo começa na Palavra, tendo Jesus como centro e o Evangelho como Caminho, ponto de apoio e ponto de chegada.

O Evangelho vivido dia a dia cria uma camada capaz de cercear os impulsos mais humanos, até o ponto em que um ser-humano, mergulhado em Deus, viver como se fosse maioria absoluta, no meio da mais absoluta maioria contrária, no meio da mais absoluta contradição em relação à sua reputação. O que importa mesmo é uma boa consciência diante de Deus, para que se viva sem medo e para Deus.

Por isso, podemos afirmar que há ação do Espírito Santo no ser humano sempre que este se converte dos seus pecados, pelo arrependimento, e passa a crer em Jesus Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador, pedindo a Deus que lhe revista e encha do Espírito Santo.

Tal experiência é chamada de batismo no Espírito Santo. Isto tem ocorrido durante toda a história do cristianismo. Portanto, é dos frutos e da conversão que se deve dar testemunho e não dos dons e bênçãos eventualmente distribuídos – e esse testemunho deve ser dado com a própria vida, no dia a dia, e não somente com palavras. Por isso, deve ser genuíno, experiencial, para a glória de Deus e para a referência prática dos outros irmãos.

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