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A dinâmica atual do Natal é fruto do sincretismo religioso

Muitos costumes populares associados ao Natal desenvolveram-se de forma independente da comemoração do nascimento de Jesus, com certos elementos de origens em festivais pré-cristãos que eram celebrados em torno do solstício de inverno pelas populações pagãs que foram mais tarde convertidas ao cristianismo.

Estes elementos, incluindo o madeiro, do festival Yule, e a troca presentes, da Saturnalia, tornaram-se sincretizados ao Natal ao longo dos séculos. A atmosfera prevalecente do Natal também tem evoluído continuamente desde o início do feriado, o que foi desde um estado carnavalesco na Idade Média, a um feriado orientado para a família e centrado nas crianças, introduzido na Reforma do século XIX. Além disso, a celebração do Natal foi proibida em mais de uma ocasião, dentro da cristandade protestante, devido a preocupações de que a data é muito pagã ou antibíblica.

Vale marcar que o Natal não se encontrava entre as primitivas festividades cristãs. Irineu e Tertuliano não o mencionam nas suas listas de festas. De fato, a primeira evidência da festa procede do Egito. A primeira vez que existe referência direta à observância do Natal, entre os cristãos, acontece no pontificado do papa Libério (352-366).

O Natal e a comercialização da Misericórdia

O Natal hoje tem perdido seu caráter mais puro, mais teológico, mais festivo.

Fruto do sincretismo religioso, associado ao desenvolvimento do marketing e da cultura do presente, a festa do Natal se transformou, primordialmente, em uma “festa pagã materialista com alguma mística cristã”.

Infelizmente, isso é a realidade para a imensa maioria dos cristãos, que pouco compreende o valor real do que está por trás da celebração. De fato, o Natal está cada vez mais frio e vazio, reflexo de nossa sociedade materialista, que afasta e se envergonha de Jesus, prestando culto ao imediato, pois vive focada nas preocupações e angústias deste mundo, a chamada concupiscência dos olhos, portanto, da alma.

É reflexo também de nossa característica hedonista dominante, porque nos faz alimentar de  orgias mundanas e autogratificação, a concupiscência da carne, que nos consome por dentro, endurecendo nossos corações.

O Natal como data símbolo de comprar e receber presentes é alienante, pois substitui a graça conquistada por Jesus, o maior de todos os presentes, por um par de tênis ou um brinquedo qualquer. Jesus simplesmente não tem sido mais convidado para a “festa de seu próprio Natal”. Mas qual a origem disso? Simples: a natureza humana.

Estamos sujeitos às tentações essenciais das trevas, as mesmas três a que Jesus foi sujeito por Satanás no deserto: a tentação da saciedade material e da riqueza (“nem só de pão vive o homem…”), a da idolatria, do querer ser Deus, que tem a ver com não aceitar a própria história… a tentação do milagre (“adorarás ao Senhor , teu Deus, e a ele só prestará culto”) e a tentação do poder (“não porás à prova o Senhor teu Deus”).

A única diferença é que caímos e caímos e caímos, enquanto nosso Senhor manteve-se firme. Não é por outra razão que ao longo de todo Evangelho somos chamados a enfrentar o mal, mas incentivados a fugir de nossa carne. Simplesmente não podemos ganhar de sua natureza. Cedo ou tarde caímos.

Isso é esperado, porque é da natureza humana corrompida pelo Pecado. Mas não é aceitável que um crente, como nós, viva por e se alimente dessa natureza. A fé, o batismo e a genuína conversão que nos faz permanecer em Cristo, a Eucaristia, a oração e a própria Igreja, como sacramento, já nos foram dados como armas.

Entretanto, o mal é ardiloso e tem agido no seio de nossas igrejas e comunidades, falseando biblicamente seus interesses. Sua retumbante vitória tem se manifestado com a entrada da Teologia da Prosperidade no panteão das crenças cristãs, de muitos evangélicos e protestantes, a católicos praticantes ou não (se é que é possível alguém ser católico, sem praticar…).

Com seu positivismo do tudo posso naquele que sou (a minha fé, a minha corrente, os meus dons…) ou tudo posso naquele que me fortalece (o pastor, o padre, o santo, Maria…), o valor do aqui-agora, da minha vontade, do milagrismo e do material passou a ser transformado em um instrumento de barganha e determinação da natureza da relação do homem com Deus, num ciclo do tipo “toma lá, dá cá”.

Essa relação monetizada e materializada com o Pai traz consigo implicações gravíssimas no seio de nossa fé apostólica. Por isso, no campo espiritual e religioso, podemos dizer que crer na Teologia da Prosperidade é crer na teologia que matou a esperança em Cristo e concentrou todo esforço para essa vida; que matou, portanto, a ressurreição e todo seu significado para a vida no mundo que há de vir (conforme nosso Credo).

Cabe a nós cristãos, resgatarmos a essência do Natal, seu significado mais valioso, compreendendo profundamente o que significou a entrada de Deus, por Cristo, na história humana em geral e, em especial, na vida de cada um de nós e de nossas famílias e comunidades.

Feliz Natal!

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