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Deus-encarnado, Cristo nasceu como homem no seio da Virgem Maria. Mas continuou Deus enquanto viveu aqui?

Essa questão da natureza de Jesus rendeu muitas discussões e disputas teológicas entre os cristãos durante o 1º milênio de nossa era, especialmente entre os anos 350 e 900.

Muitas correntes defendiam diferentes pontos de vista, mas o monofisismo, a heresia criada por Nestório, era a mais fortalecida. Segundo a teoria, Jesus tinha somente sua natureza espiritual, negando totalmente sua carnalidade humana e os impactos dessa condição na vida das pessoas: isso era muito grave, pois dava a força à outra heresia – o docetismo. Afinal, se Jesus não era carnal, não tinha como ter sofrido em seu calvário. Mais do que isso, colocava a seguinte questão: para quê mesmo nós, simples mortais, iríamos sofrer, se Ele não havia sofrido, de fato? Estava em cheque a necessidade de fidelidade dos cristãos ao projeto e à doutrina de Jesus, principalmente em tempos de perseguições e martírios.

No Concílio da Calcedonia, em 451, os Padres da Igreja definiram que a doutrina cristã oficial para a natureza de Cristo seria a diofisista, segundo a qual Cristo tinha/tem, efetivamente, 2 naturezas  – a 100% divina e a 100% humana – em 1 só pessoa. Diz o texto aprovado no concílio:

“Na linha dos santos Padres, ensinamos unanimemente a confessar um só e mesmo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, o mesmo perfeito em divindade e perfeito em humanidade, o mesmo verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, composto de uma alma racional e de um corpo, consubstancial ao Pai segundo a divindade, consubstancial a nós segundo a humanidade, “semelhante a nós em tudo com exceção do pecado” (Hb 4,15); gerado do Pai antes de todos os séculos segundo a divindade, e nesses últimos dias, para nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus, segundo a humanidade. Um só e mesmo Cristo, Senhor, Filho Único que devemos reconhecer em duas naturezas, sem confusão, sem mudanças, sem divisão, sem separação. A diferença das naturezas não é de modo algum suprimida pela sua união, mas antes as propriedades de cada uma são salvaguardadas e reunidas em uma só pessoa e uma só hipóstase.” (DS 301-302)…

Ou seja, Cristo é face de Deus para os homens e a face do homem perante Deus.

…“Com isso, o nascimento de Cristo no tempo não diminuiu em nada o nascimento divino e eterno, e a ele nada. Seu significado inteiro concretizou-se na restauração da humanidade, que se havia desviado. Aconteceu a fim de que a morte fosse vencida e que o diabo, que antes exercia a soberania da morte, fosse destruído pelo seu poder, pois não poderíamos vencer o autor do pecado e da morte a não ser que aquele, a quem o pecado não podia manchar nem a morte podia agarrar, assumisse a nossa natureza e a tornasse sua própria.”

Sendo também de natureza divina, Jesus então já sabia de tudo que lhe aconteceria em sua vida encarnada?

Há que ficar claro que, mesmo sendo Deus e homem, por sua Kênosis, Jesus esvaziou-se de sua divindade e viveu integralmente como homem, com seus (nossos) dilemas, dores, dúvidas, angústias…

Por isso, é errado supor que Jesus já veio completamente programado para sua missão e, como uma marionete predestinada, não decidiu/escolheu voluntariamente, mas teria sido “forçado” a cumprir o projeto de salvação do Pai.

Na verdade, Jesus foi tendo, com os efeitos da pregação de sua doutrina, a clara consciência evolutiva de qual era seu papel neste mundo: edificar o Reino de Deus e apresentá-lo a todos os seres-humanos, começando por Israel, o “povo escolhido”.

Sim, Jesus crescia com sua consciência e isso é bíblico (cf. Lc 2,52): “e crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus”.

Por ser homem, totalmente livre como nós, homens, Jesus tinha o direito de dizer não ao projeto do Pai, como nós temos até hoje. Tanto é verdade que Jesus era livre, que foi tentado por Satanás no deserto, titubeou no Jardim das Oliveiras (“Pai, se queres afasta de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” – Lc 22,42) e suplicou por Deus, já quase sem esperança, no alto de sua cruz (“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” – Mt 27,46).

O mérito inalcançável de Jesus está, portanto, justamente em ter escolhido viver o projeto do Pai até o final, até sua última gota de sangue, não por si, já que era divino desde sempre, mas por nós e para nossa salvação.

Com isso, podemos afirmar que Jesus definitivamente não era um ator performático, fingindo sofrer o que sofria, como se não soubesse, mas já sabendo o que teria que passar… Definitivamente não.

Vale lembrar, por exemplo, que Jesus só foi crucificado porque, em sua época, Israel era dominada pelo Império Romano e eram os romanos quem tinham o costume de crucificar seus “criminosos”. Não fosse essa a época, Jesus provavelmente teria sido apedrejado, como determinava a Lei de Moisés (vide Santo Estêvão, nosso primeiro mártir, apedrejado até a morte).

O que muda toda a lógica da humanidade com a encarnação de Jesus é perceber que Ele morreu porque “fracassou” em seu projeto de edificação do Reino de Deus em vida, que Ele morreu porque as trevas foram mais fortes e porque os seus o renegaram. E que mesmo assim, em sua máxima fraqueza e fracasso (a morte, a suposta vitória do príncipe deste mundo), Deus Pai o levantou dos mortos, para que, da cruz, ele pudesse nos governar para todo o sempre, com todos os joelhos a Ele subjulgados, em uma nova e definitiva visão de poder: o poder do amor, do serviço, dos laços espirituais de irmandade.

O Natal representa a porta de entrada de tudo isso em nossa história. É pela encarnação de Cristo que tudo isso se tornou realidade.

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