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Deus é Amor. E a fórmula bíblica do Amor é: Amor = Doação + Perdão!

O perdão é o fermento do cristianismo! Sem ele, o Corpo Místico de Cristo se enfraquece e seu Evangelho perde eficácia.

O PERDÃO E A DIMENSÃO ESPIRITUAL

O perdão é exemplo de Deus, ato voluntário e unilateral de Deus para conosco, sua criação. A reconciliação começa com Ele; parte dele o “perdão original”. É Deus-Pai quem se move em nossa direção, decide interferir em nossa história e nos doa seu único filho, Jesus, que acaba morrendo por nós, para nossa salvação.

Cristo, em sua Kênosis (esvaziamento voluntário de sua divindade, cf Fl 2,5-11) e obediência integral ao Projeto do Pai, se doou até a última gota de sangue, mesmo sem precisar se reconciliar com o Pai, porque Ele mesmo não tinha pecado. Fez isso por nós. Por isso, não há amor maior que dar a vida pelo irmão… E com isso, fomos perdoados para a eternidade.

“Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento”. (Mc 2,17)

Com a afirmação acima, Jesus universaliza o acesso ao Reino de Deus, por transformar o perdão em ato sacramental, obrigação de todo aquele que quer estar com Deus. Mas quem é são e quem é doente? Quem é puro e quem é pecador?

Aos olhos da religião judaica de época, essa atitude de Jesus de estar com os pecadores, de resgatar as ovelhas perdidas era considerada sacrilégio, pois um puro não poderia se misturar com um impuro.

Seu Evangelho quebra essa lógica de exclusão e segregação, democratizando Deus-Pai como o Deus de toda humanidade (adâmico) e não somente o Javeh judaico (abraâmico). Jesus vai ainda mais além, afirmando aos doutores da Lei (os que praticavam a Lei de Moisés deturpada como lei de morte) que “os cobradores de impostos e as meretrizes vão preceder-vos no Reino de Deus” (Mt 21,31-32).

Jesus nos mostra que o acolhimento do amor do Pai é precedido do seu perdão incondicional, porque esse Reino de Deus, criado e oferecido a toda humanidade, advém da expansão da consciência de Deus em cada um de nós.

O perdão na perspectiva de Jesus…

Jesus nos dá inúmeros exemplos de como perdoar: Ele perdoa de forma direta; perdoa àqueles que o negam, traem e abandonam; pede para que Deus perdoe a ignorância de seus assassinos; perdoa fazendo o bem; perdoa acolhendo o pecador; perdoa esquecendo o mal e a iniquidade; perdoa dando a outra face; perdoa ficando calado; perdoa aceitando a fraqueza humana e condição da concupiscência que Ele mesmo pôde experienciar – sem pecar, entretanto, enquanto esteve encarnado.

Nos Evangelhos

                i. (Mt 5,20-26) “Todo aquele que irar contra seu irmão será castigado pelos juízes. Assim, se tiveres para fazer sua oferta diante do altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deves deixar a tua oferta e ir primeiro reconciliar-te com teu irmão. Entra em acordo com teus adversários, enquanto estás em caminho com ele, para que não suceda que te entregue ao juiz”.

               ii. (Mt 5,38-42) “Tendes ouvido que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te dá na face direita, volta-lhe também a outra; ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e quem te obriga a andar mil passos, vai com ele dois mil. Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes”. 

              iii. (Mt 6,14-15) “Pois, se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai celestial também perdoará vocês. Mas, se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não perdoará as ofensas de vocês”. 

              iv. (Mt 7,5) “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão”.

               v. (Mc 11,25-26) “E, quando estiverem orando, se tiverem alguma coisa contra alguém, perdoem-no, para que também o Pai celestial perdoe os seus pecados. Mas, se vocês não perdoarem, também o seu Pai que está nos céus não perdoará os seus pecados”.

              vi. (Mt 18,22) “Digo-te, não até sete vezes, mas setenta vezes sete vezes”… conta esta simbolizando que o número de vezes que se deve perdoar ultrapassa para “além do infinito”, representado biblicamente pelo número 7. 

             vii. (Lc 6,27-38) “Mas a vós, que isto ouvis, digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam; Bendizei os que vos maldizem, e orai pelos que vos caluniam.
Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses; E dá a qualquer que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir. E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também.E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam.E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também os pecadores fazem o mesmo.E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto. Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei bem, e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus. Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; soltai, e soltar-vos-ão.
Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando, vos deitarão no vosso regaço; porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo.”

            viii. (Lc 17,3-4) “Se o seu irmão pecar, repreenda-o e, se ele se arrepender, perdoe-lhe. Se pecar contra você sete vezes no dia, e sete vezes voltar a você e disser: ‘Estou arrependido’, perdoe-lhe”. 

              ix. (Lc 23,24) “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.

Em Paulo

               x. (Colossenses 3,13) “Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou”. 

              xi. (2Coríntios 2,5-8) “Se um de vocês tem causado tristeza, não a tem causado apenas a mim, mas também, em parte, para eu não ser demasiadamente severo com todos vocês. A punição que foi imposta pela maioria é suficiente. Agora, ao contrário, vocês devem perdoar-lhe e consolá-lo, para que ele não seja dominado por excessiva tristeza. Portanto, eu recomendo que reafirmem o amor que têm por ele”. 

xii. (Efésios 4,32) “Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, assim como Deus os perdoou em Cristo”. 

Em Cristo, o amor e o perdão são a “nova Lei”:“Nisto são manifestos os filhos de Deus, e os filhos do diabo. Todo o que não pratica a justiça, e não ama a seu irmão, não é de Deus. Porque esta é a mensagem que ouvistes desde o princípio: que nos amemos uns aos outros”. (1João 3,10-11)“Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama a seu irmão permanece na morte. Qualquer um que odeia a seu irmão é homicida. E vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele”. (1João 3,14-15)

 

O PERDÃO E A DIMENSÃO HUMANA

Compreendendo a necessidade humana do perdão

O perdão é um processo mental-espiritual de cancelar o sentimento de ressentimento ou raiva contra outra pessoa (Deus inclusive) ou contra si mesmo, decorrente de uma ofensa, de diferenças, erros ou fracassos. Com o perdão vem o cessar da exigência de castigo, a sede de vingança, o desejo de restituição ou reparação.

Para ser verdadeiro, deve ser precedido pelo reconhecimento do erro e ser concedido sem qualquer expectativa de compensação. Pode ocorrer, ainda que de forma não ideal, mesmo que o perdoado não tome conhecimento do ato. Tão importante quanto perdoar é saber ser perdoado, aceitar o perdão.

Exemplo claro de como compreender o perdão bíblico é a “parábola do Filho Pródigo”, cf Lc 15, 11–32.

O perdão é um ato de amor, de graça, dom, mas é também uma decisão, porque significa o esquecimento completo e absoluto das ofensas; vem do coração, é sincero, generoso e não fere o amor próprio do ofensor. Perdoar de forma cristã é não impor condições humilhantes e jamais estar imbuído de orgulho ou ostentação. O verdadeiro perdão é concreto, edificante e restaurador e, por isso, se reconhece claramente pelos atos e não pelas palavras.

Sob o ponto de vista cristão, duas angústias humanas são sempre fundamentais motivadoras para a teologia do perdão:

  • A necessidade de sermos perdoados por Deus e
  • A necessidade de nos perdoarmos mutuamente, como pré-requisito para o nosso aprimoramento espiritual e para o recebimento do perdão de Deus.

Por isso, o verdadeiro perdão espiritual é completo; não é só racional, ou só emocional, ou ainda somente prático. Qualquer perdão que seja incompleto (exemplos: perdoamos na prática, mas remoemos no coração; ou perdoamos no coração, mas não conseguimos materializar na prática, ou ainda perdoamos na intenção, na razão, mas sofremos com isso…) não simboliza o perdão espiritual proposto por Deus.

A exemplo de Paulo, perdoar a si mesmo é um passo fundamental

(Filipenses 3,13-14) “Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim,
Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”.

Perdoar a si mesmo é essencial. Há uma tendência em todos nós de exigirmos mais de nós mesmos do que dos outros. Até certo ponto isso é normal e desejável, porque o erro e o sofrimento forjam em nós o aprendizado e a santidade, desde que esse espírito de perfeição não se transforme em motivo de fracasso pessoal ou de tentativa de usurpação/substituição do sofrimento de Cristo por nossos supostos méritos.

A questão do autoperdão não é mencionada claramente na Bíblia. Mas indícios não faltam.

Quanto Deus nos perdoa, ele opta por esquecer nossos pecados (cf Jeremias 31,34). Pedro (Atos 10,34) afirma que “Deus não faz acepção de pessoas”, ou seja, a todos aqueles que creem em Jesus, Ele perdoa por igual, independente de quem seja.

A reflexão e a autoanálise são práticas fundamentais do progresso espiritual. Mas energia negativa que nos leva a nos crucificarmos diariamente, valorizando nossas faltas, cristalizando esse orgulho, somente diminui nosso amor próprio e para com o próximo, o que drena a energia que deveríamos dedicar a nos tornar a pessoa que Deus deseja que sejamos. Perdoar é, antes de tudo, uma decisão inteligente e um passo de vitória individual.

O pecado nos domina quando nos colerizamos, enraivecemos, invejamos, atacamos, voltamo-nos contra nós mesmos ou contra nossos irmãos, ambos criação e filhos amados de Deus. Por isso, podemos pecar diretamente contra Deus e também indiretamente, pecando contra o irmão. Nesse contexto, o perdão é, com o amor, a melhor arma de combate que dispomos.

Perdoar é sinal de humildade

A questão do perdão tem como pano de fundo o conceito de igualdade perante Deus, igualdade entre todos. Quando somos capazes de perdoar aos outros, mas não a nós mesmos, estamos afirmando que somos soberbos, pois nos entendemos menos capazes do que outras pessoas de cometer tal erro. O mesmo vale para quando rejeitamos o perdão de Deus e dos outros. Importante lembrar Provérbios 16,18, que diz: “O orgulho vem antes da destruição; o espírito altivo, antes da queda”. Só o perdão traz a verdadeira paz.

Por fim, quando nos perdoamos, ajudamos os outros a se perdoarem; e isso os edifica e edifica o todo. Perdoar a si mesmo e aos outros tem um poderoso efeito multiplicador e foi acreditando nesse efeito positivo que Jesus calcou sua doutrina.

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