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“Corpo Místico de Cristo”

Entendendo melhor o Corpo Místico de Cristo

Corpus Mysticum, Corpo Místico de Cristo ou mais genericamente Corpo de Cristo é um conceito originariamente paulino cunhado para definir a Igreja universal fundada por Jesus Cristo (lastreada, portanto, no Espírito e na Verdade que fundamentam o Evangelho de Jesus).

Esta referência apareceu formalmente na Bíblia em diversas passagens de Paulo, especialmente na 1ª. Carta aos Coríntios (12, 12-14), em que Paulo descreve a Igreja como o Corpo de Jesus Cristo, tendo o próprio Cristo como sua cabeça, além de estar em Romanos 12, 5; Efésios 3,6 e 5,23 e Colossenses 1,18 e 1,24.

Se o Batismo é o sacramento que nos insere na Igreja e, portanto, nos torna membros do Corpo Místico de Cristo, a Eucaristia, sinal atual e evidente da ressurreição de Cristo e de nossa reconciliação com o Pai é, por sua vez, Cristo hoje, vivo, cabeça atuante, e tem a prerrogativa de ser o sacramento que restaura e purifica continuamente a Igreja, Corpo de Cristo, e todos os seus membros, porque a (nos) mantém longe do Pecado.

Por isso, a Eucaristia é denominada semelhantemente como o Corpus Verum ou Corpus Christi, ou ainda Corpus Naturale, conforme é descrito pelo próprio Cristo na Bíblia, em Lucas 22, 19-20.

Fazendo parte do Corpo Místico de Cristo

Todo batizado que professa a fé no Evangelho de Jesus Cristo é membro do Corpo Místico de Cristo e deve estar em comunhão com Cristo e com o próximo. Essa comunhão se dá de forma integral e perfeita (batismo, eucaristia como sacramento memorial vivo, doutrina central, liturgia), de forma imperfeita (batismo, eucaristia como memorial, doutrina central) ou ainda de forma incompleta (em geral, somente batismo ou, no caso de outras religiões, a vida e o coração conforme o Evangelho de Cristo, mesmo que sem conhecê-lo).

Contrariamente ao que defendia em séculos anteriores, a Igreja Católica Apostólica Romana compreendeu, por ação do Espírito Santo, que muitas das verdades da nossa fé têm sido contextualizadas de maneira santificante em outras igrejas cristãs (e até não cristãs), de forma que os frutos gerados por suas comunidades é evidentemente aprazível a Deus e dignamente O representam.

Mais ainda, a Igreja Católica assumiu que, mesmo sem haver dúvida sobre a origem e o lastro de sua primazia, a fé dos praticantes dessas outras igrejas cristãs é também edificante e que, portanto, a salvação também é possível fora da Igreja, porque a semente do Verbo, que é Cristo, conforme o Concílio Vaticano II (cf. Lumen Gentium, n. 16), age, pelo Espírito Santo, como quer e onde quer.

Esse avanço de compreensão tem sido fundamental no processo de reunificação ecumênica do Corpo Místico de Cristo (junto aos demais grupos cristãos) e também nos diálogos inter-religiosos (com outras religiões não cristãs), pois alarga a complacência e a capacidade de acolhimento e debate honesto entre as diferentes compreensões teológicas, doutrinárias e litúrgicas, ainda que não restem contestações, as verdades essenciais da fé cristã não possam, em hipótese alguma, ser relativizadas ou alteradas por quem quer que seja, conforme o conceito de anatemização pregado por Paulo aos Gálatas (vide box com esta passagem específica, acima).

Não por acaso, o Magistério da Igreja Católica tem corretamente entendido e ensinado atualmente que os cristãos não-católicos também são, apesar de um modo imperfeito, membros inseparáveis do Corpo de Cristo, por meio do Batismo. Ou seja, eles são considerados como elementos da única Igreja de Cristo, que “subsiste (subsistit in) na Igreja Católica” (Igreja Católica aqui entendida como o conjunto das 23 igrejas católicas em perfeita comunhão entre si e alinhadas com a primaz Romana).

Estas comunidades cristãs não católicas dispõem de muitos, mas não da totalidade, dos elementos de santificação e de verdade necessários à confirmação de nossa salvação. Por outro lado, conquistaram diversos tesouros que devem ser incorporados por todos os cristãos, inclusive os católicos.

Esta postura de abertura e autorrevisão católica, tanto de jogar fora categorias humanas que dominaram a Igreja (mas que nada tinham a ver com o Evangelho), como de abraçar elementos compreendidos fora de seus “muros” (mas que tinham forte embasamento no Evangelho), tem sido uma das bases sólidas do ecumenismo atual. O Concílio Vaticano II deixa isso evidente, ao propor, de certa forma, uma volta ao cristianismo primitivo juntamente com uma transformadora revisão litúrgica, assim como ao acolher inúmeros dos pontos propostos, por exemplo, por Lutero, 500 anos antes, por conta da Reforma Protestante.

Sim, irmãs e irmãos: o “céu” está cheio de “hereges”, assim como o “inferno” está cheio de “supercatólicos”.

A divisão dos cristãos significa a divisão do Corpo Místico de Cristo e, como tal, é herética e fonte de vergonha e escândalo!

Nós, católicos, somos, conforme desejo do próprio Jesus, a Igreja evangelicamente por Ele outorgada, constituída, portanto, sobre seu Evangelho e transferida como missão de edificação e continuidade a Pedro, o primeiro Papa, e, por decorrência, a cada um de nós.

Como sociedade constituída e organizada no mundo, nossa Igreja crê que Cristo nela subsiste (“subsistit in”), já que é seu fundador, participante e líder. Assim sendo, como fiéis, através da fé em Cristo e dos sacramentos do Batismo, Confissão e Eucaristia, confirmamo-nos a todo momento como parte ativa dessa Igreja e membros deste Corpo único, místico, inquebrável e divino, cuja cabeça invisível e divina é somente o próprio Cristo e cuja liderança visível ou terrena, apesar de também membro e nunca cabeça, é o Papa, em conjunto com todo clero, religiosos e fieis.

Este conceito de Corpo Místico está ancorado também na crença de que como fiéis estamos unidos intimamente a Cristo, por meio do Espírito Santo, sobretudo na Eucaristia e no serviço ao próximo, com o compartilhamento dos dons e das virtudes, em prol da geração dos necessários frutos do Espírito que edificam, já a partir deste mundo, o Reino de Deus da eternidade.

Por isso, repartir a Igreja, criando outras igrejas, pode ser comparado a um ato tão grave e herético quanto ao de amputar e desmembrar o Corpo de Cristo, reabrindo suas chagas na cruz, trono sobre o qual Jesus reinou e, com seu sacrifício, garantiu a herança da promessa do Reino de Deus e da vida eterna a toda humanidade, agora definitivamente afiliada ao Pai.

É possível dizer, por conseguinte, que o pecado da desunião é um pecado contra o corpo e o sangue de Jesus (ref Jo 17) e é também o maior obstáculo à confirmação da salvação da humanidade já conquistada por Cristo com seu ato reconciliatório com o Pai, na cruz.

Então de quem é a responsabilidade por tanta divisão?

De todos os cristãos envolvidos, independente da igreja ou denominação professada! Mas… lembremos da primazia católica!

Se esse processo de divisão ocorreu e tem ocorrido ao longo dos anos no seio da Igreja instituída por Cristo, maior é a responsabilidade daqueles que, conhecendo e vivenciando desde a origem o Evangelho e a Tradição, deveriam ser capazes de propor e manter a união (respeitando as diversidades doutrinariamente aceitáveis) de todos os membros de seu Corpo Místico; ou seja, nós mesmos católicos.

Se, como Igreja, temos, mesmo sendo iguais, a primazia dentre nossos pares, pelo poder das chaves entregues por Jesus à rocha visível e rebatizada que é Pedro (Simão que se torna Cefas/Pedro), então como primazes, também temos a responsabilidade sobre a unicidade do Corpo Místico e a garantia da integridade dos tesouros eternos a nós confiados por Cristo e por nós conquistados com o martírio, o combate às heresias e a defesa da fé.

Jesus disse com clareza em Mt 7,15-20: “Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de ervas daninhas? Semelhantemente, toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins. A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão!”. Claramente, para Jesus, o pastor tem maior pecado no erro do que a ovelha.

Conforme Mt: 5,14, somos nós cristãos “a luz do mundo”, candeia no velador e cidade edificada sobre um monte. Por isso, refletimos Cristo, que é a Luz (Jo 8,12), ao mundo através das nossas vidas. Dessa forma, o que os outros sabem de Cristo é evidenciado através de nosso testemunho efetivo de vida (Tg 3,13-18; I Pd 3,1-2; Tito 2,5).

Quando convivemos e produzimos o pecado em nossas vidas cotidianas, o brilho de Cristo é diminuído, ou seja, o nosso testemunho de Cristo é danificado e, com isso, nosso poder de evangelização e conversão, de forma que podemos, de fato, levar o outro a pecar. Eis aqui o grande escândalo! Ao invés de trazermos o outro para Cristo, afastamos nossos irmãos de Cristo. E, por muitas vezes, temos feito isso ao longo dos anos!

Nossos erros nos tornam menos dignos? Perdemos ou deveríamos perder a legitimidade e a primazia então?

Não! Jesus não erra. Ao escolher Pedro como rocha, Cristo sabia o que estava escolhendo.

Não podemos contrariar o Senhor, pois Jesus é Deus. Por isso, mesmo com todos os pecados por nós cometidos ao longo dos séculos, ainda somos e sempre seremos a Igreja de Cristo, até a Parusia (definida como a volta gloriosa de Jesus Cristo, no fim dos tempos, para presidir o Juízo Final).

Ao contrário de reformar a Igreja, ainda que com legitimidade de causa, a partir do enfoque “extra-muros”, com a tônica da divisão (como fizeram Lutero, Calvino, Zuinglio e Hus, por exemplo), mais evangélico e valoroso teria sido, ainda que “quase que impossível” em alguns momentos, reformar a Igreja a partir de dentro da Igreja, como tem conduzido atualmente o Papa Francisco.

Esse processo, ainda que mais lento, garante que a Igreja se edifique a altura de seu fundador e que não se perca nenhum de seus membros pela dúvida ou pela discórdia, de forma que a desunião que somente atende aos interesses do anticristo não venha a imperar junto ao povo de Deus.

Entretanto, mesmo com tudo de positivo que a Igreja tem promovido e produzido a partir de sua instituição, desde a defesa da fé com a vida dos mártires nos primeiros anos de perseguição, ao combate das heresias que ameaçaram os bastiões de nossas crenças, à compilação, por Santo Atanásio, do Cânon Bíblico (utilizado em grande monta por todos os cristãos) a partir do 1º. Concílio de Nicéia, inúmeras são as benfeitorias legadas pela Igreja á humanidade, de forma que está bem perto de ser verdade irrefutável podermos afirmar que só evoluímos como evoluímos por causa – e não apesar – da Igreja Católica.

Basta evidenciarmos os conteúdos propostos pela Igreja, hoje assumidos como de senso comum, a defesa intransigente da vida, o peso dado à família como célula máter da sociedade e inúmeros aspectos doutrinários e litúrgicos formalizados por nossa Igreja, para assim podermos materializar uma ínfima parte do que foi feito nesses 2000 anos.

São inúmeros santos conhecidos e não conhecidos que se dedicaram e dedicam integralmente ao Evangelho, uma infinitude de voluntários e um monstruoso volume de serviços focados nos mais necessitados, inclusive com a criação de organismos e ordens de religiosas longevas, altamente úteis à sociedade.

Há também o conhecimento produzido por séculos nas primeiras e mais tradicionais universidades, praticamente todas criadas pela Igreja, além do óbvio estímulo e preservação das artes e da cultura e o desenvolvimento da ciência e do gênero humano, assim como a atuação sócio-política fundamental em momentos profundamente agudos e críticos da humanidade.

Ainda sim, mesmo com tudo isso mais do que sabido e ensinado nos bancos escolares em todo mundo, estamos por anos pagando o preço amargo de nossos erros (tanto os reais, como os fictícios, a nós injustamente imputados). Hoje, com o acúmulo de escândalos gerados e amplificados nesses 1000 anos, infelizmente, a Luz, que é Cristo, tem tido sua intensidade relativizada ao longo desse período, não por acaso iniciado em uma época cunhada como Idade das Trevas.

Desde meados dos anos 800 até praticamente a década de 60 passada, foram séculos e séculos de erros, heresias, ambições de poder, desmandos e desvios da doutrina original de Cristo, que acabaram por criar na Igreja Católica um certo estigma de Igreja herética e temporal, que finalmente começaram a ser encarados, assumidos e corrigidos nos últimos 50 anos.

Dos tribunais da Inquisição e cruzadas, aos dogmas e concílios politicamente orientados à sede de poder, domínio de terras e manutenção da elite real em detrimento do povo pequenino, foco central de Jesus, em muitos momentos (não em todos, como querem fazer presumir os que atacam nossa Igreja) realmente fomos os pregadores do antievangelho.

Mas isso não nos faz menos dignos de sermos chamados filhos de Deus ou de sermos os fieis depositários de Cristo e seu Evangelho. Porque Cristo sabia com quem estava lidando ao escolher seus 12 discípulos e, especialmente Pedro como líder de sua Igreja.

Por isso, mesmo que reconhecendo o monstruoso pecado daqueles que dividiram a Igreja, temos que reconhecer o monstruoso pecado de termos criado as condições para que estes processos de divisão pudessem ocorrer.

Cristo é único e sua Igreja, como Corpo Místico, tem que ser única naqueles aspectos da fé que definem sua doutrina e visão teológica.

Por isso, se o Evangelho e o cristianismo primitivo (a Tradição dos Apóstolos e dos Pais da Igreja até meados do Sec. VIII) são a base comum, pode até haver sentido em se discutir e particularizar alguns ritos, liturgias, costumes e mesmo alguns dogmas mais modernos; mas não há qualquer sentido em se discutir os artigos centrais da fé cristã, como Trindade, Ressurreição, Eucaristia e Comunhão dos Santos, porque, do contrário, este cristianismo não se reforma, não evolui e não se fortalece; mas se torna outra fé, em um “outro Cristo”, com o mesmo nome, mas um conteúdo e significado completamente diferentes!

O Catolicismo é a Igreja fundada por Cristo e Roma é a Igreja primaz entre os pares. Qual o fundamento disso?

Cristo é o fundamento e a pedra angular da fé, a rocha espiritual sobre a qual a Igreja está lastreada, o Messias judaico, o Filho único de Deus, que é Deus com o Pai e o Espírito Santo.

Somos membros dessa Igreja instituída por Cristo e sobre Cristo. Jesus – e só Jesus – é o Verbo Encarnado, Palavra de Deus, o Filho Salvador.

E foi Jesus, em vida, quem repetidamente anunciou que subiria ao Pai; que não estaria mais presencialmente conosco até o momento oportuno de sua volta. Com isso, nasceu e floresceu a importância do discipulado vivo, presente, eficiente, capaz de se capilarizar e converter a tantos quantos seja possível, porque sem Jesus presencialmente neste mundo, caberia aos discípulos – a nós – construir sua Igreja, sob a proteção e a direção do Espírito Santo.

Fez-se necessária, portanto, a instituição e a organização da Igreja, palavra-conceito que é cunhado justamente por Cristo, tanto é que não é sequer citada uma única vez em todo Antigo Testamento.

Pedro, o 1º. Discípulo, é também o 1º. Papa e é a rocha humana que Cristo escolheu para conduzir sua Igreja. Cristo é, portanto, a rocha kairótica no plano espiritual e Pedro a rocha cronológica no plano terreno que, respectivamente, fundam e continuam a Igreja, agora sob a égide do Espírito Santo, deixado por Cristo como nosso paráclito e consolador até a sua volta.

Ironia ou não, Simão Pedro, o primeiro e líder dos discípulos, o pescador simples, rude e analfabeto, tornou-se nosso primeiro Papa. Por quê? Por que Pedro, em si, é a síntese do povo cristão/católico, em tudo que este representa de santo e pecador.

Pedro, mesmo tendo convivido com Jesus e sido por Ele nomeado como líder dos demais (e nosso líder), foi aquele que negou Jesus 3 vezes, que dormiu no Jardim das Oliveiras enquanto o Senhor sofria agudamente antes de sua captura pelos soldados romanos, aquele que foi chamado de Satanás pelo próprio Jesus (Mt 16, 21-27).

Mesmo com essas atitudes, Jesus “rebatizou” Simão de Pedro (Kepha ou Cefas = rochedo em grego) e o transformou na rocha humana, falha e pecadora, escolhida pelo Salvador desde o início para conduzir sua Igreja.

Pedro, portanto, o primeiro Papa! Roma, local em que exerceu seu papado e em que perdeu sua vida, degolado de cabeça para baixo (conforme a Tradição), a cidade primaz de estabelecimento da Igreja tocada por Pedro, mas obviamente inspirada por Jesus.

Assim, nossa Igreja só tem efetivo sentido se for exatamente como Cristo foi, pensou, agiu e determinou. A Igreja só tem sentido se for servidora e comunitária (vida em comunhão plena), se for a Igreja do Lavapés, mesmo que pecadora em seu plano humano, mas fundamentalmente Santa, porque Cristo a Santifica. Queiram ou não, quanto a isso, temos uma verdade consumada, pois contra esta Igreja nada de mal pode prevalecer, conforme Mt 16,18-19:

“Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”.

 

Está aqui, portanto, a garantia de origem da nossa Igreja, de nossa fé em Cristo, e, mais do que isso, da fé de Cristo em nós, apesar de nossa natureza.

Pedro e essa “estranha” decisão de Jesus!

Mas porque Jesus teria outorgado sua Igreja e as chaves da religação com os céus a Pedro, se Ele já sabia detalhadamente de todos seus pecados e falhas? Por que não João, o discípulo amado, aparentemente “melhor”, Thiago Maior ou Filipe (ambos supostamente líderes mais fortes), ou qualquer outro discípulo?

Parece não fazer sentido… mas faz enorme sentido e isso é a mais singela VERDADE sobre a legitimidade de nossa Igreja: Deus-Pai nos amou mais que tudo, antes mesmo de termos a chance de perceber, compreender e retribuir a parte humanamente possível desse amor infinito, mesmo com todas as nossas falhas e natureza pecadora.

Jesus não poderia esperar que seres imperfeitos pudessem aceitar o fardo impossível de edificar a perfeição na Igreja, representada por Ele, Deus perfeito. Jesus quis (de fato foi sua ESCOLHA) que a imperfeição humana conduzisse sua Igreja (no âmbito humano), porque somente assim a Igreja seria humilde, pequenina e verdadeira o suficiente para ser reflexo da humanidade falha e, portanto, capaz de espelhar, acolher, perdoar e converter para Sua Mensagem e para o Reino do Pai. Só assim seria possível esperar que houvesse identificação e conversão real de cada um de nós, adesão verdadeira ao Seu Projeto e, portanto, o discipulado a partir das vocações individuais.

Por isso Jesus escolheu Pedro, já que representa em essência toda natureza humana. O mesmo Pedro que deu seu o sim “sem pensar” ao chamado do “desconhecido” Jesus na praia do Mar da Galileia enquanto pescava com seu irmão André; aquele que defendeu Cristo cortando a orelha de Malco; que teve a graça de confessar, antes de todos, que Jesus era o verdadeiro Messias, o Filho de Deus (a “revelação fundamental de Pedro”), é o Pedro que também foi capaz de fugir, negar e tentar conter o projeto salvífico do Senhor (lembremos do episódio do Lavapés).

Pedro é claramente, em maior ou menor dimensão, exatamente o que somos como imitadores de Cristo: seres dicotômicos na fé, claudicantes na certeza, santos (porque santificados por Cristo) e pecadores por natureza, pela concupiscência da carne herdada do pecado adâmico.

Por isso, precisamos aceitar nossa condição e humildemente conciliar as diferenças. É Jesus quem permite a diversidade!

“E, respondendo João, disse: Mestre, vimos um que em teu nome expulsava os demônios, e lho proibimos, porque não te segue conosco. E Jesus lhes disse: Não o proibais, porque quem não é contra nós é por nós”. (Lc 9, 49-50)

 “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco. A mim me convém agregá-las também. Elas também ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um pastor.” (Jo 10,16)

O próprio Jesus reforçou “n” vezes que os 12 discípulos eram todos iguais, mesmo que houvesse escolhido claramente um líder (Pedro). Os 12 eram iguais perante Jesus, como todos somos iguais perante Jesus e perante o Deus do Universo. Paulo, o último e, como se definia, o menor de todos os discípulos, bate muito nessa tecla, tanto é que “briga” com Pedro sobre a questão da extensão de salvação aos pagãos e ímpios, no chamado Incidente de Antioquia. E vejamos, é Pedro quem cede e não Paulo.

Paulo, sem conviver pessoalmente com Cristo, muda a teologia doutrinária erroneamente compreendida por Pedro naquele momento de que a salvação era somente para os judeus (que Jesus era o Messias judaico), mesmo sendo Pedro o líder dos discípulos e o braço direito de Cristo!

Novamente o Espírito Santo, propondo a diversidade dentro da unicidade, que criativamente, mas sem ser herética, repagina e fortalece a unicidade!

Daí, cada discípulo e seus pares/sucessores (ex. Barnabé, Tito e Lucas de Paulo, Marcos de Pedro, etc) e os chamados 72 Pais da Igreja primitiva, se dividem então – conforme ordenado por Jesus – “por todo canto” do mundo, instituindo igrejas e ministérios locais, com suas próprias compreensões de quem era Jesus, cada qual com seu papel e bagagem cultural pessoal, que eram todas muito diferentes, mesmo entre os 12 que ficavam, supostamente, 24hs do dia juntos e com Ele.

Por isso os Evangelhos, ainda que completamente uníssonos e verdadeiros em seu cerne teológico-doutrinário, são tão diferentes em suas adjacências conjunturais, culturais e temporais. Foram escritos em momentos diferentes, por pessoas diferentes, para públicos, com culturas e fé diferentes, e seus autores não tinham qualquer presunção de unificá-los de forma concatenada e revisada em um único livro, ainda mais considerando a ordenação a partir do encadeamento dos livros do Antigo Testamento judaico.

Senão vejamos:

  • Mateus, o judaizante (liga Jesus a Abraão e prega Deus ainda na linha de Javé), provavelmente muito alinhado a Thiago e Filipe, escreve para provar que Jesus era o Messias para o povo judeu;
  • Marcos – entenda-se “escola” de Pedro, é aquele que escreve o Evangelho narrativo, curto, factual, histórico, fazendo de Jesus o Filho do Homem, o Filho único enviado por Deus (ainda pregando para os judeus, principalmente)
  • Lucas – entenda-se “escola” de Paulo, mas ainda sob a base histórico-teológica de Marcos e Mateus, prega que Deus é Deus do Universo e não somente de Israel e que Jesus é o salvador da humanidade (Lucas liga a genealogia de Jesus a Adão e não a Abraão);
  • João – o único Evangelho não sinótico, o cristocêntrico por excelência, que traz Jesus como Verbo Encarnado desde antes do início da criação, falando em primeira pessoa e usando o pronome “Eu”, somente associado ao Deus judaico Javé (“Eu sou aquele sou”), coloca Jesus no patamar de Deus. Em João, e somente em João, temos a evolução máxima da compreensão cristológica que baliza nossa fé e faz de Jesus mais que um simples profeta apocalíptico, o que, aliás, também era. Em João temos a única citação bíblica que define Jesus com Deus, dada na confissão de fé póstuma de Thomé “Meu Senhor e meu Deus” (Jo: 20,28);
  • Em Hebreus, Jesus é apresentado como profeta, rei e sacerdote definitivo, conectado à Ordem de Melquisedeque e não somente à ordem abraâmica, à casa de Israel;
  • Em Filipenses, Paulo diz que Jesus é o Deus que abre mão de sua condição divina, se esvaziando (Kênosis) e se fazendo igual ao homem, exceto pelo pecado, para salvar o próprio homem;
  • E por aí vai…

Diferentes compreensões, um mesmo Jesus: judeu, carpinteiro, profeta, líder religioso, contestador político, sacerdote, Messias, Rei, Salvador da Humanidade, Filho do Homem, Filho Único de Deus, Verbo Encarnado, Deus Trindade! Tudo isso…

Tentar conter Cristo é errado e infantil. Ele é Deus e não cabe em uma só visão ou uma só igreja, porque ele é a Igreja. O que importava naquela época (e devia valer para hoje) era a conversão de todos para a salvação em Jesus. Essas igrejas locais tinham autonomia, viviam suas culturas locais (conforme Paulo em 1 Corintios 9,22: “Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos.

Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns”), porque o que devia e deve ser mantido intacto, sob o risco de anatemizar o Evangelho, era a mensagem salvífica de Cristo e não os costumes e culturas locais, que são “caronas” que os pregadores devem saber pegar – sem, contudo cometer e aceitar heresias – para mais bem evangelizar. Ou seja, as igrejas dos demais discípulos, ligadas a Pedro/Roma e irmanadas entre si, não deveriam pregar sobre Pedro/Roma, mas sobre Jesus e sua doutrina. E assim devemos fazer também nós.

Se, por um lado, um reino não subsiste quando se divide, por outro, cresce quando se multiplica em unidade de valores, princípios e verdades, ainda que consiga saudavelmente preservar algumas peculiaridades de suas comunidades formadoras.

Como explicar a Comunhão de Santos?

A cada um de nós, segundo a vontade de Deus, foi dado um ou mais dons complementares para que o Corpo Místico de Cristo todo tenha sentido, pois somos todos membros do mesmo Corpo. Assim, damos sentido uns aos outras e ao todo, fortalecendo a interdependência e a união (conforme o desejo de Cristo e contrariamente ao interesse daquele que cresce com a divisão).

Por isso todos os dons são importantes e complementares. Por isso todos os dons são iguais em importância, porque todos somos iguais perante Deus e estamos sob o mesmo Espírito Santo, justamente porque os dons nos são dados por esse mesmo Espírito. Por isso, se um membro sofre, todos sofrem com ele, todo Corpo sofre. Da mesma forma, se um se beneficia, todos são beneficiados.

Quem se rebela contra ser quem é ou contra o outro está em rebelião contra a vontade soberana de Deus. Murmurar é pecado grave.

Como Igreja, não podemos usurpar do trono de Cristo e ambicionar assumir o papel de videira, que é Cristo, pois somos todos ramos;  como também não podemos perder de foco a integridade de propósito do Espírito Santo na vida de cada um de nós. Temos sim que nos voluntariarmos aos dons que nos são dados gratuitamente, com desapego e serviço (Communio!). Esse processo do Espírito Santo em nós tem um papel curador, terapêutico, de conexão espiritual com o plano de Deus para cada um de nós.

Assim, a Comunhão dos Santos é absolutamente necessária, viabilizadora e inerente ao conceito de Corpo Místico de Cristo. Essa afirmação certamente inclui também os mortos, uma vez que, como crentes da vida eterna, temos a certeza de que todos os batizados permanecem com Deus ou a caminho do encontro com Deus e, assim, mesmo sem os poderes de onisciência, onipresença e/ou onipotência, exclusivos SOMENTE da Divindade, podemos sim interceder, vivos e mortos, uns pelos outros, ainda que não saibamos exatamente o que se passa com os que estão no plano espiritual, porque não nos é dado interagir com os mortos, conforme Jesus afirmou na parábola do rico que vai para o inferno em Lc: 16,29.

Por isso, Comunhão dos Santos não é espiritismo, que é herético e não pertence à nossa fé.

A fundamentação teológica para isso é a certeza de que a morte não nos tira do Batismo, portanto, do Reino de Deus, da Igreja e, portanto, mantém cada membro do Corpo, vivo ou morto, como ramo da videira. Como entoava Paulo, a morte não separa ninguém do amor de Cristo, como em Romanos: 8, 35-39 (“Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: “Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro”. Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”).

Então a morte não excomunga ninguém do Corpo de Cristo. E é a renovação da Aliança e o verdadeiro pertencimento a este Corpo, conquistado pelo Sangue de Cristo, que celebramos recorrentemente na Eucaristia.

O Mistério da Oração

A comunhão entre os membros do Corpo de Cristo não é racional ou emocional, mas de espírito.

Assim, não se dá via comunicação direta entre vivos e mortos, mas por amor e pertencimento. Como o fígado não interage diretamente com pulmão, mas ambos são partes essenciais do mesmo corpo, cada qual com seu papel, importância e interdependência, também é cada membro, vivo ou morto, do Corpo Místico de Cristo. Oremos e intercedamos uns pelos outros, portanto.

Entendemos, portanto, à luz do conceito paulino de Corpo Místico de Cristo, que por mais que a oração seja um instrumento de diálogo individual da criatura para com a divindade trinitária criadora, altamente eficaz, isso não representa sua principal “função”. Se fosse somente isso, seria algo meio estéril, do tipo “Pai faça isso por mim, Pai te peço aquilo, etc”, banalizando Deus-Pai num “Papai do Céu” feito à imagem e semelhança de seus filhos, um gênio da lâmpada atendedor de pedidos. E isso ELE não é.

Oração não é somente pedido, súplica somente, mas principalmente agradecimento, bênção, louvor, compartilhamento de coração, AMOR… Por isso, na verdade, ela é tão mais eficaz quanto se qualificar como um instrumento de intercessão mútua entre todos os membros do Corpo de Cristo (cada qual com seus talentos e falhas, complementando uns aos outros). Por isso mesmo Jesus diz em Mt: 18,20 “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. Por quê? Porque a oração também fortalece o Corpo Místico, que se manifesta TODO (cf João) ao seu Criador, em louvor infinito.

Intercessão é profundamente fundamental para a viabilidade do conceito de Corpo Místico de Cristo

A oração pelo próximo, mesmo que este não creia em Cristo ou não queira a oração, toca a Deus, aproxima. Orar uns pelos outros e incessantemente a Deus são recomendações fundamentais de Cristo. A intercessão é tema da Revelação e está na atitude de Cristo, da Igreja e dos Apóstolos; inclusive, rezando pelos inimigos, pelos que não aceitaram a verdade da fé, pelos afastados. Essa é a realidade do Cristo vivo na Igreja.

A intercessão também ocorre vivamente com a Comunhão dos Santos, entre vivos e mortos e aqueles no purgatório.

Jesus está vivo em sua Igreja (“…e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.” – Mt 28,20).

Cremos em nosso catecismo verdadeiramente que Jesus é o único salvador e único mediador entre Deus-Pai e os homens, mas Jesus não é sozinho, apesar de Cristo ser o único. Qualquer um pode ser mediador junto a Jesus, o Deus-Filho, porque Cristo é a cabeça de um corpo, que é a Igreja, da qual fazem parte todos os membros e não somente Jesus. Assim, somos também membros com o único mediador e único Sacerdote, que é Cristo e, por membresia, nos tornamos todos, sacerdotes. Como reflexão para esta verdade, vale perguntar: se assim não fosse, então qual seria o efeito prático de orarmos uns pelos outros?

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