Controvérsias sobre a Data do Nascimento de Jesus

Não sabemos exatamente quando Jesus nasceu. Mais precisamente, sua encarnação física neste mundo deve ter-se dado entre os anos 6 e 4 a.C.. Certamente, o dia é impossível saber.

Essa diferença de calendário (estaríamos hoje no ano 2017 ou 2019) se deve porque o cálculo usado para o princípio do nosso tempo – baseado no nascimento de Jesus – foi efetuado por São Dionísio (Dionysius Exiguus), que errou nas suas estimativas em alguns anos, conforme referiu o próprio Papa Emérito Bento XVI, em seu recente livro dedicado aos primeiros anos da vida de Cristo.

A Bíblia, por sua vez, não traz uma data específica para o nascimento de Jesus. São Dionísio parece ter baseado suas estimativas nas referências vagas quanto à idade com que Jesus começou a pregar e ao fato de ter sido batizado durante o tempo do Imperador Tibério.

Em que condições Jesus nasceu?

Considerando toda a história e tradição do povo de Israel, é mais aceito que Jesus tenha nascido em uma estalagem para viajantes (menos provável) ou em um aposento de uma família que os acolhera (mais provável), e não em uma gruta, história que passou a ser incorporada na tradição a partir de textos tirados do Protoevangelho de Tiago, escrito por volta do ano 200 d.C., considerado apócrifo, escrito por alguém usando o nome de Tiago, mas que não era judeu e pouco conhecia da geografia e das tradições judaicas.

Esse livro conta a história do nascimento e vida de Maria até o nascimento de Jesus e é com base nessa história que ficamos com a ideia de que Maria teria entrado em trabalho de parto na noite em que chegou a Belém, que Jesus teria nascido em uma gruta, que Maria estaria sozinha na hora do nascimento, que nessa época José era um idoso que tinha outros filhos, e que Maria não só era virgem antes do nascimento de Jesus, mas que continuou virgem o resto da vida. Alguns desses conceitos foram incorporados às histórias tradicionais das crenças cristãs, especialmente as protestantes, católicas e ortodoxas.

Outras questões curiosas em torno do nascimento de Cristo são também contestadas pelo Papa Emérito, como a existência de animais na cena bíblica do nascimento de Jesus, conforme é habitualmente reproduzida nos presépios de Natal. Entretanto, ele reafirma cabalmente a virgindade de Maria como uma verdade “inequívoca” da fé.

O nascimento de Jesus nos Evangelhos

Muitos dos fatos ligados ao nascimento de Jesus são apresentados integral ou parcialmente nos Evangelhos Sinóticos e no Evangelho de João (esse, por exemplo, não cita que Jesus nasceu de uma virgem). Os Evangelhos Apócrifos também apresentam alguns relatos, especialmente relacionados à infância de Jesus.

Mateus, autor do Evangelho mais conectado às origens judaicas, enfatiza a dimensão messiânica do advento ao colocar Jesus como descendente de uma linhagem que tem início em Abraão, o primeiro dos patriarcas, deixando claro que Jesus é o Messias esperado pelo povo judeu, tão decantado em todo Antigo Testamento, pelos profetas, reis e pelas histórias do povo de Israel.

Em Lucas, o anjo Gabriel assegura à Maria que Jesus está destinado a assumir o trono de Davi, sobre o qual ele reinará para sempre, e conecta genealogicamente Jesus a Adão, primeiro homem criado por Deus no Gênesis, mostrando que Cristo não é somente Messias para os judeus, mas para toda a Humanidade (teologia que combina com a contida na Carta aos Hebreus, que diz que Jesus é sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque e não de Abraão).

Paulo também reforça a linhagem que parte de Abraão e consuma-se em Jesus, mas é ele também o Apóstolo que mais defende a universalidade da mensagem do Evangelho, da graça e da salvação conquista por Cristo, especialmente para os não judeus, considerados pagãos, ímpios e impuros perante a Lei de Javé.

Marcos (1, 1-11) e João (1, 6-8) introduzem a figura de Jesus através das profecias de João Batista.

Adicionalmente, outras fontes provam que o Jesus histórico existiu. Nos Atos dos Apóstolos, vemos o que sucedeu nos 30 anos seguintes à ressurreição e ascensão de Jesus. As Epístolas (ou cartas) de Paulo também citam fatos sobre Jesus. Notícias não-cristãs de Jesus e do tempo em que ele viveu encontram-se nos escritos de Flávio Josefo, escritor judeu que nasceu no ano 37 d.C.; nos de Plínio, o Moço, que escreveu por volta do ano 112; nos de Tácito, que escreveu por volta de 117 e nos de Suetônio, que escreveu por volta do ano 120.

Jesus nasceu mesmo em Belém?

Mateus e Lucas queriam comprovar às comunidades judaicas do século I que Jesus era o Messias judaico e, para isso, Ele teria que ter nascido, conforme as escrituras, na terra de Davi; portanto, em Belém, na Judéia. O texto de Lucas, entretanto, afirma que a anunciação aconteceu em Nazaré, onde José e Maria viviam, mas eles foram obrigados a viajar até Belém, pelo censo ordenado quando Quirino era governador da Síria.

Entretanto, é cada vez mais provável que Jesus tenha nascido mesmo em Nazaré, na Palestina, durante o final do reinado de Herodes Antipas.

Sobre o nascimento virginal de Jesus

O nascimento virginal de Jesus é um dogma do cristianismo que sustenta que Maria concebeu Jesus ainda virgem, milagrosamente por ação do Espírito Santo, sem qualquer envolvimento de seu futuro esposo José. Também no islamismo essa doutrina está presente, mas a concepção teria sido por ação de Alá (equivalente a Deus-Pai no islamismo).

Essa doutrina, fortemente presente nos Evangelhos de Mateus (Mt 1,18) e Lucas, foi universalmente adotada na Igreja cristã já no século II e aceita por todas as igrejas históricas, como a Igreja Anglicana, a Igreja do Leste, a Igreja Ortodoxa, as Igrejas Protestantes e, claro, a Igreja Católica Apostólica Romana, tanto é que está presente nos credos ecumênicos nicenoconstantinopolitano (“e por nós homens, e para nossa salvação, se encarnou no seio da Virgem Maria”) e apostólico (“nasceu da Virgem Maria”).

Entretanto, ambos Marcos, autor do Evangelho mais comprometido com a história factual de Jesus, e João, autor do Evangelho mais teologicamente profundo em conceitos cristológicos, não fazem questão de valorizar esse fato.

Na Igreja Católica Romana e na Igreja Ortodoxa, o termo “nascimento virginal” não significa apenas que Maria era virgem somente quando concebeu e deu à luz, mas também que ela teria permanecido virgem por toda a vida, uma crença atestada desde o século II (vide Virgindade Perpétua de Maria).

Essa doutrina sofre contestações diversas até hoje, principalmente por conta dos chamados irmãos de Jesus citados nos Evangelhos, supostamente somente filhos de José. De qualquer forma, o fato de Maria ter se mantido virgem posteriormente à concepção de Jesus é infinitamente menos relevante, dado que era casada formalmente com José, do que sua virgindade antes e durante a concepção de Jesus.

Vale reforçar que a doutrina geral cristã do nascimento virginal de Jesus não deve ser confundida com a doutrina católica romana da Imaculada Conceição, que trata da conceição imaculada da própria Maria por Santa Ana, sua mãe, fato bastante mais distante das bases teológicas dos Evangelhos e da Tradição dos primeiros séculos (basta lembrar que o Dogma da Imaculada Conceição é recente, de 8 de Dezembro de 1854).

Vale lembrar que a Igreja Ortodoxa não tem dogmas romanos ou doutrinas mariológicas; por exemplo, para eles, Maria é simplesmente o caminho vivo para se chegar a Jesus. Em sua concepção, que parece acertada, toda devoção mariana deve ser focada em Cristo e não nela, cristocêntrica, portanto. Para nós, ainda erroneamente, muitas vezes é agnocêntrica (centrada nos santos, na divinização de uma pessoa ou imagem).

A origem do Natal como celebração

A palavra natal do português já foi nātālis no latim, derivada do verbo nāscor (nāsceris, nāscī, nātus sum) que tem sentido de nascer. De nātālis do latim, evoluíram também natale do italiano, noël do francês, nadal do catalão e natal do castelhano, sendo que a palavra natal do castelhano foi progressivamente substituída por navidad, como nome do dia religioso. Já a palavra Christmas, do inglês, evoluiu de Christes maesse (“Christ’s mass”) que quer dizer missa de Cristo.

Os primeiros indícios da comemoração de uma festa cristã litúrgica do nascimento de Jesus em 25 de dezembro se dão, em Roma, a partir do ano de 354. No ano 350, o Papa Júlio I proclamou o dia 25 de dezembro como data oficial e o Imperador Justiniano, em 529, declarou-o feriado nacional.

No cristianismo oriental, o nascimento de oriental o de Jesus já era celebrado em 6 de janeiro, por conta da Epifania, fato que perdura em muitas comunidades até hoje e que perdurou no ocidente até o IV século. Somente mais tarde o oriente aderiu à data de 25 de dezembro, em Antioquia por João Crisóstomo, no final do século IV (provavelmente em 388) e em Alexandria, somente no século seguinte.

A data do Natal é 25 de dezembro, mesmo?

É pouco provável que seja, inclusive, que seja nos meses finais do ano.

A bíblia diz que pastores estavam nos campos cuidando das ovelhas na noite em que Jesus Cristo nasceu. O mês judaico de Kislev, correspondente aproximadamente à segunda metade de novembro e primeira metade de dezembro no calendário gregoriano, era um mês frio e chuvoso. Sendo assim, não era um mês propício a pastores e ovelhas ficarem nos campos, passando frio. Entretanto, Lucas afirma que havia pastores vivendo ao ar livre e mantendo vigia sobre os rebanhos à noite, perto do local onde Jesus nasceu. Esses pastores teriam sido avisados do advento, no evento chamado de anunciação aos pastores.

A formalização da festa do Natal nesse dia pela Igreja Católica foi mais uma reação às demandas de unidade religiosa da época, com a entrada em massa dos pagãos na Igreja, a partir do ano 313.

Com a universalização do catolicismo no Império Romano e a entrada de infinitas religiões no panteão cristão, muitas vezes se sincretizando com a fé pura apostólica, os Padres da Igreja se viram forçados a adequar questões da fé original e pagã desses povos recém cristianizados à fé genuína no Evangelho de Cristo, substituindo seus ritos e cultos por ritos e cultos cristãos. Por exemplo, Íris, deusa pagã do Egito, Diana de Éfeso ou a deusa-mãe Semíramis dos judeus são substituídas por Maria. Já Mitra, deus dos soldados romanos, assim como o deus-sol de várias nações, por Jesus.

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