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A Páscoa em Família É Mais Páscoa

O Cristo servidor do Lavapés do Evangelho de São João é a antítese da mitologia judaica sobre o Messias guerreiro, líder, forte, político, libertador de Israel. Cristo inaugura a teologia do Deus servidor, dando nova referência para a vida dos Homens, a vida cristã, o parâmetro perfeito para os cristãos e suas famílias e comunidades (cf Ef 5,1 – “sede imitadores de Cristo”).

A proximidade, a comunhão com Cristo está no amor a Deus a ao próximo. Afinal, segundo a primeira Carta de São João, “se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?”. Assim, não existe conhecimento de Deus sem viver seus mandamentos, sem amar ao próximo. Aliás, só se conhece a Deus no exercício do amor ao próximo.

Por isso, a Páscoa tem mais sentido, com uma celebração viva e presente, se for compartilhada, vivida em família. A ressurreição e a Eucaristia, igualmente, só têm sentido se forem vividas diariamente, na relação com Deus e o com outro. E a família é o primeiro “outro”, o mais próximo, o essencial. Por isso, a família é a Igreja Doméstica.

É no lar cristão que os filhos recebem o primeiro anúncio da Fé. Nessa Igreja doméstica, comunidade de graça e oração, se aprendem as virtudes e verdades teologais da fé, esperança e caridade/amor, que definem o jeito de ser e agir do cristão. A primeira catequese é, necessariamente familiar, seja pelo aprendizado das orações mais básicas, seja pela inserção do modelo e da dinâmica cristã nos filhos e nas relações entre os indivíduos. De nada adianta um comportamento supostamente irrepreensível perante Deus, se não há Reino de Deus na prática, na vida familiar e comunitária dos fiéis.

Como reforço, podemos dizer, também, que a Igreja – corpo ou esposa de Cristo – é também uma família. São Paulo nos chama de membros da família de Deus, edificados sobre o alicerce dos Apóstolos (Ef 2, 19-20), vivendo em comunhão de santos. É pelo Batismo, na Igreja, que “nascemos de novo”, e é nela que vivemos a Páscoa do ressuscitado, toda vez que com Ele e dele comungamos.

Papa Francisco: “Caminhar em Cristo, Edificar a Igreja e Confessar Jesus com a sua Cruz”

Há, fundamentalmente, que se recuperar o conceito cristão primitivo de comunidade de fé e amor, onde todos são ramos da mesma videira, que é Jesus (Jo 15, 5). Sem isso, a Igreja fica dividida, fraca, suscetível às pressões e mazelas da sociedade moderna. Não é por outra razão que a essência pura do mal, simbolizada pelo diabo, tem sua raiz na palavra diabolos, i.e., aquele de divide, desune.

A Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo precisa se fortalecer na união de seus fiéis, corpo em comunhão e necessariamente em constante oração e intercessão mútua, porque sem isso, não há Reino de Deus possível, porque não há troca, não há amor, não há interdependência. Foi Jesus quem disse no Evangelho de Marcos (3,24) que “se um reino estiver dividido contra si mesmo, não poderá subsistir”, seja de Deus, seja do diabo.

É nossa obrigação com cristãos e cidadãos do Reino procurar essa união, essa integração com todos os demais cristãos, também membros do corpo místico de Cristo. E isso presume evangelizar, mas também ceder. Presume dar razões da fé e da esperança verdadeiras, mas também abandonar crendices e desvios teológicos tão comuns e aparentemente inofensivos. Ora, se somos chamados à membresia, então nós e nossas famílias temos o papel fundamental de trabalhar para construir o Reino, dar solidez ao corpo de Cristo, comungar com os irmãos, santificar e sermos santificados pela Igreja com nosso testemunho diário, em nossas vidas, atos e decisões práticas.

Uma parte deste processo tem a ver com nossa relação direta com Deus, nossa auto-exortação, nosso exame de consciência, nossa contínua re-conversão. Tem a ver com sermos mais cristãos, mais ativos, mais profundos, mais verdadeiros. Tem a ver com amar mais, dar mais, doar mais, aceitar mais. É viver como se Cristo tivesse morrido ontem, ressuscitado hoje e fosse voltar amanhã. A quaresma é, em natureza, o período fundamental para essa reflexão profunda, para esse retorno a Deus, para o mergulho definitivo em seu amor.

Quaresma sem auto-reconhecimento, sem auto-esvaziamento (Kênosis), sem algum sofrimento e sem abandono da auto-idolatria, dos desejos e vontades individuais em prol do projeto de Deus em nossas vidas e de nossos irmãos não é quaresma. Mas isso, por si só, não é suficiente para que o Reino se estabeleça plenamente.

Além da perfeita relação com Deus, pela conversão verdadeira e contrita, precisamos nos irmanar com o outro, viver verdadeiramente em comunidade de fé, sem barreiras de qualquer sorte.

Por isso, devemos olhar para nossos irmãos cristãos, sejam ex-católicos, sejam católicos sincréticos e perdidos, sejam protestantes ou evangélicos. O engano está em toda parte, inclusive dentro de nossa Igreja, como organização humana. A verdadeira Páscoa só tem efeito prático se compreendida à luz da ressurreição e tudo que ela implica. E a questão essencial da Páscoa e da ressurreição tem a ver com a Eucaristia.

É a Eucaristia que nos torna Igreja, comuns no sentido de comungar em igualdade com o outro, que também é filho adotivo criado por Deus. A Eucaristia é o centro de nossa vida em Cristo, porque com ela, Cristo se torna vivo em cada um de nós, refazendo nossa vida, se misturando fisicamente com nossa carne e sangue.

A perda dessa compreensão por parte de irmãos protestantes e evangélicos, que entendem a Eucaristia somente como uma repetição simbólica e respeitosa da Ceia do Senhor e não como um processo de comunhão real do verdadeiro corpo e sangue do Senhor, conforme Ele mesmo instituiu (“tomai todos e comei…”), ou mesmo de irmãos católicos que não entendem seu significado real, reduzem o alcance imaginado por Jesus quando disse para TODOS tomarem, TODOS comerem e TODOS beberem dele. Essa divisão, na verdade, enfraquece todo corpo de Cristo, reduzindo a força, presença, alcance e atratividade do Reino de Deus no mundo de hoje, fato que verificamos diuturnamente em nosso derredor.

Vale lembrar que no Evangelho não há “ismos” (ex: cristianismo = sistema organizado em torno de Cristo), porque mais importante que a sistemática da fé, é a existência real da fé no coração do fiel. Em verdade, o Evangelho simples e verdadeiro é uma crítica constante aos “ismos” criados por humanos com sede de poder e controle, porque o que é glória aos olhos do Homem, é abominação aos olhos de Deus.

Entretanto, infelizmente, o modelo mental (o “software”) do cristão-católico-protestante-evangélico padrão e distante da fé verdadeira, daquela que se pode fiar/confiar, está programado para aprovar previamente qualquer proposta de glória humana que se pareça com Jesus e com o Evangelho, mesmo sem o ser.

Mais do que isso, o mundo moderno, multimídia, multipossibilidades, do tudo podemos, tudo queremos, tudo teremos, parece em gênero, número e grau ao mundo idealizado pelo diabo tentador de Jesus, nos 40 dias do deserto:

  • Transformar pedras em pães – A tentação insaciável dos bens materiais e emocionais, que leva à relação funcional com Deus e com o Evangelho (da troca, da barganha, do milagrismo) como fuga à falta de amor, ao não ser amado, desejo intrínseco de todo indivíduo,
  • Adorar “outro deus” por um só instante, em troca de todos os reinos – a tentação do poder, do controle, da vantagem individual, do pilotar a própria vida, não se abandonando em Deus, que causa efeito nefasto em si e no próximo, uma vez que com a ausência do temor a Deus, o indivíduo se torna potestade e ídolo de si próprio, sem limites, vivendo de imagem, absolutamente vazio e
  • Saltar do Pináculo do Templo e ser salvo pelos Anjos, conforme as escrituras – a tentação dos milagres, da possibilidade de ser como Deus, de ser Deus (a mesma que Adão e Eva caíram na parábola do Éden), tão apregoada pelo neoateísmo, pelo antropocentrismo asfixiante que domina a sociedade moderna e celebriza pessoas em detrimento de Deus, transformando o verdadeiro crente em Deus em um ser supostamente desconectado do mundo e da realidade.

A mensagem que fica é que não cabe nunca o conceito de seguirmos o Evangelho por que dá certo, mas sim porque é certo.

Jesus, luz eterna, com suas práticas de amor e serviço, mostrou quem eram as trevas e como agiam. É, portanto, missão de todo cristão é mostrar o pecado que corrompe e desune. Jesus manda perdoar os pecados, de forma alguma reter o perdão. Mas, à sua imagem e semelhança, também devemos, como profetas modernos e cristãos responsáveis pelo Reino, assumir a missão de denunciar o pecado que não faz parte do projeto de Deus.

Porque temos certeza de nossa esperança de vida eterna em Cristo e no Reino de Deus, que pode e deve começar com a ressurreição em vida, nesta vida, mas que deve ser fiada com tesouros que conquistamos na vida eterna.  Feliz Páscoa!

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