A Páscoa e sua História

A Páscoa é uma festa única, a festa das festas, solenidade das solenidades, assim como a Eucaristia é o sacramento dos sacramentos (“o grande sacramento”). Para Santo Atanásio, a Páscoa é “o grande domingo”. É por ela que o mistério da ressurreição, quando Cristo mata a morte, entra no tempo cronológico de nossas vidas, afetando para sempre nossa compreensão de passado, presente e futuro.

Entretanto, a Páscoa, absolutamente relevante tanto para judeus, como para cristãos, tem origem e finalidades distintas para essas religiões.

A Páscoa Judaica ou Pessach, celebrada até hoje, festeja e atualiza a libertação do povo judeu dos egípcios, cruzando o mar vermelho a pés secos, rumo à terra prometida (Canaã). Não é a toa que o Êxodo (Shemot), o livro da libertação de Israel, é primeiro livro a ser escrito na Bíblia judaica (antes mesmo do Gênesis) e é o texto-central de sua Páscoa.

De acordo com a Torá, a primeira celebração do Pessach ocorreu há 3.500 anos, quando Javé (Deus-Pai, como nominado pelos judeus) enviou as dez pragas sobre o povo do Egito. Antes da décima praga, Javé instruiu Moisés para que seu povo sacrificasse um cordeiro por inteiro, sem mancha, e que o sangue desse cordeiro fosse passado na porta das casas, para que o anjo exterminador, ao passar, não parasse/voltasse naquela casa, matando seus primogênitos.

Na noite deste mesmo dia, os hebreus comeram a carne do cordeiro acompanhada de pães ázimos e ervas amargas. À meia-noite, um anjo enviado por Deus feriu de morte todos os primogênitos egípcios, desde os primogênitos dos animais até os primogênitos da casa de Faraó. Este, temendo a ira divina, aceitou liberar o povo de Israel, o que levou ao Êxodo.

Como celebração desta libertação e do castigo de Deus sobre Faraó (prova da fidelidade de Javé), o Pessach foi instituído como ritual anual para todas as gerações de judeus, tornando-se um verdadeiro memorial de atualização da experiência dos antepassados em sua relação direta com o Deus cumpridor de suas promessas.

Desde os primeiros anos do Cristianismo a datação da Páscoa foi motivo de divergências entre o Oriente e o Ocidente e de aprofundados estudos. Sua formalização religiosa começou no ano 325 com a realização do Concílio Ecumênico realizado em Nicéia, convocado pelo Imperador Constantino, quando os santos Padres da Igreja resolveram, por unanimidade, que a Páscoa seria comemorada por todos os cristãos no mesmo dia. O calendário para a Páscoa é baseado na astronomia e, por isso mesmo, muito complexo.

As resoluções daquele concílio para a celebração da Páscoa foram:

  1. A Páscoa deverá ser comemorada sempre num Domingo (o dia que Deus fez para os cristãos, pois foi o dia em que Jesus ressuscitou)
  2. A Páscoa deve ser comemorada no Domingo que segue a lua cheia do equinócio da primavera no Oriente, isto é, depois do dia 21 de março.
  3. A Páscoa cristã realizar-se-á sempre após a Páscoa judaica.

No catolicismo do Oriente, todas as Igrejas Ortodoxas canônicas celebram a Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo o Calendário Juliano, instituído por Júlio César, no ano 46 antes de Cristo. A Igreja Ortodoxa, fiel às decisões deste Concílio de Nicéía, continua seguindo este calendário, observando fielmente seus cânones e não aceitando reformas, nem tampouco inovações no que diz respeito à Quaresma e às festividades pascais até o dia de Pentecostes, no 50º dia após a Páscoa.

Conforme recomenda o catecismo da Igreja Católica Apostólica Romana, um conhecimento mais aprimorado da fé e da vida religiosa do povo judaico tais como são professadas e vividas ainda hoje, pode ajudar a compreender melhor certos aspectos da liturgia cristã.

Para os judeus e para os cristãos, a Sagrada Escritura é uma parte essencial de suas liturgias: para a proclamação da Palavra de Deus, a resposta a esta palavra, a oração de louvor e de intercessão pelos vivos e pelos mortos, o recurso à misericórdia divina. A Liturgia da palavra, em sua estrutura própria, tem sua origem na oração judaica. A Oração das horas, bem como outros textos e formulários litúrgicos, tem seus paralelos na oração judaica, o mesmo acontecendo com as próprias fórmulas de nossas orações mais veneráveis, entre elas o Pai-Nosso. Também as orações eucarísticas se inspiram em modelos da tradição judaica. As relações entre liturgia judaica e liturgia cristã e a diferença de seus conteúdos são particularmente visíveis nas grandes festas do ano litúrgico, como a Páscoa. Cristãos e judeus celebram a Páscoa; Páscoa da história, orientada para o futuro, entre os judeus; Páscoa realizada na morte e na Ressurreição de Cristo, entre os cristãos, ainda que sempre à espera da consumação definitiva.

Diversas heresias atacaram frontalmente a questão da ressurreição, fundamental conceito para a certeza da fé manifestada na Páscoa. Especialmente o Docetismo, muito vigente nas comunidades joaninas que viviam na atual Turquia, tinha como perspectiva que Jesus não havia sofrido ou mesmo morrido, que era um ator. O problema desta corrente é que desde 98 a.C., com a forte perseguição imposto pelo imperador Domiciano aos cristãos, instalava-se em seu meio a prática de que, assim como Jesus fingira, eles também, para evitar a morte, podiam fingir sua fé incondicional em Jesus, mas que, na verdade, acabavam mantendo um pé no paganismo, principalmente na adoração ao imperador romano, entendido como deus à época. Era, portanto, uma porta perigosa à fé frágil e sincrética.

Tanto isso é verdade, que a 1ª. Carta de São João dá absoluto testemunho disso, quando busca combater o docestismo a partir da valorização a sensorialidade real da fé transmitida “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam — isto proclamamos a respeito da Palavra da vida…”

Outras heresias importantes tiveram espaço para debates ao longo da história do catolicismo: O arianismo, doutrina fundada pelo teólogo Ário, de Alexandria (250 a 336), negava a divindade de Cristo (e, por decorrência, do Espírito Santo – que também foi sacramentado como artigo verdadeiro de fé no I Concílio de Constantinopla). Para Ário, Cristo não era Deus. Merecia toda honra e glória, mas não possuía sua divindade. O problema com essa heresia era fazer parecer que qualquer outra pessoa poderia ser como Cristo, assumir seu papel, uma vez que Jesus seria somente um ser-humano como qualquer outro em natureza; embora pré-destinado por Deus a viver o que viveu em sua missão (pré-destinação aqui também como erro teológico importante).

Já o Monofisismo de Nestório, combatido no Concílio da Calcedônia (ano 451 d.C.), colocava em cheque a natureza de Jesus. Os monofisistas defendiam que Jesus só tinha uma natureza: a divina, enquanto o catolicismo tanto romano, como ortodoxo defendia – e defende – a existência de dupla natureza em Jesus: a divina e a humana em perfeita unidade, a união hipostática. O impacto negativo dessa heresia era fazer supor que o Homem nada poderia fazer para viver na prática a fé cristã e servir a Deus, porque não teria a natureza divina presente em Jesus. Outro impacto negativo era supor que Jesus já viera completamente programado para sua missão e, como uma marionete pré-destinada, não decidira/escolhera cumprir o projeto de salvação do Pai de forma voluntária e consciente (Marcos 14,36 – “E disse: Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice; não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres”).

Desde sempre, teólogos e estudiosos investigam e teorizam sobre a ressurreição de Cristo. Algumas teorias são completamente anticristãs, como a do teólogo alemão Rudolf Bultmann, na primeira metade do século passado, que,  a partir do método histórico crítico (estudo científico de textos antigos), defendia que o corpo de Jesus apodrecera no túmulo, mas seu anúncio profético foi ressuscitado no coração dos primeiros cristãos, negando assim a ressurreição do Senhor em corpo glorioso e, portanto, destituindo Jesus da posição de primícia, primeiro fruto da colheita ou primeiro ressuscitado.

Outra doutrina absolutamente antecristã, também relativamente recente, é a doutrina da reencarnação presente no espiritismo de Alain Kardec (e também em outras seitas e religiões que adotam a mesma linha espiritualista). Cristo, ao ressuscitar em seu corpo glorioso – o mesmo corpo, com as chagas todas visíveis e apalpáveis – confirmou a indivisibilidade da integralidade corpo-alma-espírito, conforme entende a nossa fé. A reencarnação, quando se mistura e “é aceita” por alguns cristãos, macula definitivamente a suficiência eterna do sacrifício de Nosso Senhor, como também seus efeitos salvíficos em nossas vidas, uma vez que, por essa doutrina, nossa salvação está condicionada aos nossos méritos em nossas supostas vidas, e não à redenção conquistada por Jesus em nossa única vida terrena.

Para estes, fica a profissão de fé de São Tomé, que, por estar ausente no dia do primeiro encontro do Cristo ressuscitado com os apóstolos (e, justamente por isso, não recebeu o Espírito Santo), acaba por ser ele quem faz a única afirmação de divindade a Jesus que o equipara a Deus em todo Evangelho: “Meu Senhor e meu Deus” (João 20, 29).

Por fim, vale lembra que, para nós cristãos, católicos especialmente, a Páscoa do Senhor e sua ressurreição não ocorrem em memorial com Cristo presente, somente uma vez por ano!

Domingo é o dia da Páscoa semanal, da Eucaristia integral, vida por, com e em Cristo. Na missa, aos domingos, rememoramos na Eucaristia a Páscoa de Jesus, com o corpo e o sangue de Nosso Senhor presentes. Por isso, o que Cristo promete na missa, cumpre em nossas vidas, nos renovando, ressuscitando, tirando do pecado e reconciliando com Deus.

Para nós católicos, a palavra proclamada na Missa é sacramental, porque Deus é um acontecimento presente e vivo – é o dabar judaico, a palavra que gera movimento e transformação efetivos. Assim, o que Jesus “fala” na missa, pela boca do sacerdote, se torna ação, acontece de fato na vida de sua Igreja. É palavra de redenção individual e coletiva, porque gera metanóia, que é a conversão integral do ser (“Homem, os seus pecados estão perdoados”) (Lucas 5,20).

A missa é, portanto, a Páscoa diária onde por Jesus passamos da morte à vida, do pecado à graça, é o exorcismo do Homem Velho e o nascimento do Homem Novo. Por isso é tão santificante, rica, imperdível, desejável. Como final deste tema, fiquemos com Paulo… “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos, sabedores de que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre Ele.” (Rm 6, 8-9).

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